Um ideal maior que a paixão

iG Minas Gerais | Ludmila Pizarro |

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“Foi a Copa mais polêmica que eu vivi”. Parece incrível, mas a frase de Paulo Saturnino, 65, não se refere ao megaevento que começa amanhã. O professor aposentado do departamento de Comunicação da UFMG recorda o Mundial de 1970, tricampeonato do Brasil, realizado no auge da ditadura militar. Assim como nos dias de hoje, uma parte dos brasileiros acabou virando as costas para a paixão pelo futebol, diante do uso político que era feito do torneio, e torceu contra a seleção verde-amarela. “Havia a exploração política que a ditadura fazia de forma muito evidente, com episódios bravos como a demissão do Saldanha e a convocação do Dario. Por isso tínhamos essa perspectiva de torcer contra o Brasil. Era o futebol casado com a ideia do governo, e não de nação”, lembra. Aficionado pelo futebol, Saturnino sofreu naquele campeonato. “sofri muito porque queria torcer pelo Brasil”, declara. Após 44 anos, a política invade de novo o campo e a “Copa das Copas” transforma-se na Copa das Manifestações. Agora não é falta de democracia o problema, mas os gastos públicos e as promessas não cumpridas. Para Juliana Galvão, 25, relações públicas, militante do Tarifa Zero, movimento que discute mobilidade urbana e surgiu após os protestos de junho de 2013, um dos problemas é a Copa não ter trazido benefícios para a população. “Eles prometeram obras de transporte viário e o que a gente vê é um metrô que continua a mesma coisa e um BRT que está um caos”, analisa. A colega no Tarifa Zero e cientista social, Nathalia Duarte, 24, aponta a organização do Mundial como outro fator de descontentamento. “Agora eu vejo o quão autoritária e violenta é a Fifa. Não é à toa que as próximas Copas serão em países não democráticos. A organização da Fifa é, por princípio, não democrática”, diz Nathália que confessa não torcer para o Brasil. “Eu curtia muito (a Copa antes). Mas acho que a seleção ganhar é uma forma de apaziguar essa insatisfação. Acho que seria maléfico o Brasil ganhar”, conclui. Duas gerações entram em choque 

Além de não torcer para o Brasil em uma Copa do Mundo – em função da forma como o poder público a conduziu – sobram poucos pontos em comum entre a geração de Paulo Saturnino e a de Nathália e Juliana.  Entre as diferenças, Saturnino ressalta a dificuldade de mobilização e de expor a insatisfação durante os “anos de chumbo” (1968 a 1974) do período ditatorial. “A informação com a qual eu não concordasse eu tinha que engolir. Sair na rua com uma bandeira negra? Nem pensar, eu seria preso! Não dava nem para ligar para combinar uma ação coletiva, e hoje, com o Facebook, isso virou brincadeira!”, analisa. Outra diferença de ponto de vista se refere à coesão política das duas gerações. Para o professor, em 1970 a ditadura militar era o grande alvo, e reconquistar o direito ao voto, a principal reivindicação. Já para as jovens militantes, as pautas são heterogêneas e isso não é um problema. “Na Copa de 70 existia realmente um posicionamento contra um governo ditatorial, impositivo. E as pessoas acreditavam nas eleições”, afirma Saturnino. Já Juliana, nascida após a democratização, valoriza mais a presença da população na rua. “A gente chama todo mundo para participar das manifestações e aparecem pessoas com outras pautas. Acho positivo porque a gente viu em junho (de 2013) como o poder popular na rua muda as coisas. Existe um discurso pronto que diz que é só votar direito, porém, a democracia não é feita só de quatro em quatro anos. A democracia é feita todo dia, com participação popular”, conclui Juliana.  A polêmica demissão de João Saldanha Com o fiasco da Copa de 1966, em que a seleção canarinho foi eliminada na primeira fase, o jornalista esportivo João Saldanha passou a comandar o grupo na fase eliminatória da Copa de 1970.  Saldanha reuniu um grande time e classificou o Brasil. O resultado, porém, não resolveu o problema de Saldanha ser um ferrenho crítico da ditadura. A gota d’água para sua demissão às vésperas do torneio envolveu Dario. O presidente Médici disse à imprensa que gostaria de ver o jogador do Galo convocado. Saldanha disparou: “O general nunca me ouviu quando escalou o seu ministério. Por que, diabos, teria eu que ouvi-lo agora?”, e ficou sem o emprego. 

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