Hotel que abrigou a seleção vira um casarão-fantasma

iG Minas Gerais | Josias Pereira e Thiago Nogueira |

Time de craques. Hotel Pinheiros deu pontapé na relação da seleção com Teresópolis e hospedou nomes como Pelé
douglas magno
Time de craques. Hotel Pinheiros deu pontapé na relação da seleção com Teresópolis e hospedou nomes como Pelé

TERESÓPOLIS, RIO DE JANEIRO. Há 48 anos, havia festa. Hoje, existe o silêncio. Apenas o barulho de uma cachoeira que persiste inerte ao tempo quebra a melancolia do lugar. Em meio ao estado de abandono, um piano antigo traz à memória os tempos em que Pelé, Garrincha e sua trupe transitavam pelas dependências do Hotel Pinheiros, ponto de partida para a relação íntima da seleção brasileira com a cidade de Teresópolis.

Da glória de outrora, resta pouco. O letreiro no jardim chegou a ficar encoberto pelo gramado. Tão logo começaram as visitas de curiosos durante a preparação do escrete canarinho na cidade, o jardineiro Luiz Francisco Carreira, 39, caprichou no trato para dar nova vida à porta de entrada do local abandonado.

No entanto, para Luiz, o passado pouco importa. Uma rápida caminhada pelos cômodos entupidos de entulhos é suficiente para que o jardineiro revele outro lado daquele hotel. Em janeiro de 2011, Teresópolis foi assolada por uma tragédia climática. Mais de 380 pessoas morreram e outras 71 continuam desaparecidas após as chuvas que levaram pavor à população.

Durante esse período de instabilidade, o Hotel Pinheiros acabou se transformando no refúgio de vítimas dos deslizamentos. São pessoas com histórias parecidas com a de Luiz. “Elas vieram dos lugares que foram mais atingidos. Ficaram aqui (no Hotel Pinheiros) enquanto não tinham moradia nem aluguel social”, comenta o jardineiro, que se emocionou ao falar dos parentes que perdeu.

“Aquela época foi muito triste. Perdi cunhada, perdi primo, tinha parentes que eu nem conhecia e que acabaram sendo vítimas também. Na minha família e na família da minha mãe, e foi uma base de 45 pessoas (mortas). A maioria até hoje não foi achada”, conta.

Apesar do cenário de abandono, camas arrumadas e eletricidade indicam que o local ainda serve de refúgio. Aquele é o lar da dona de casa Paola Rocha Oliveira, 34, e de seus quatro filhos, também vítimas da chuva que assolou Teresópolis. Enquanto a luz do sol ilumina o local, a moradia da família é o chalé de entrada do hotel, mas, quando a noite cai, todos rumam para a casa principal.

“O local é cheio de mofo, corre o risco de cair a qualquer momento. Mas preciso ir para lá porque é o único lugar que tem luz para eu ligar a geladeira e guardar as injeções que preciso tomar”, afirma Paola, portadora de esclerose múltipla. Na memória da mulher de fala pausada, reside o orgulho por “viver” na primeira casa da seleção em Teresópolis.

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