De agente secreto a empresário

Clark Gregg, que estreou nos EUA a comédia “Trust Me”, fala da “obsessão de Hollywood com o poder regenerativo do estrelato”

iG Minas Gerais | Dave Itzkoff |

Iniciativa. O ator e diretor Clark Gregg realizou seu filme de forma independente e traz uma visão satírica da futilidade do showbiz
Sasha Maslov / The New York Time
Iniciativa. O ator e diretor Clark Gregg realizou seu filme de forma independente e traz uma visão satírica da futilidade do showbiz

Clark Gregg já morreu, mas parece que teve forças para se recuperar. Em sua aparição cinematográfica mais famosa, na superprodução “Os Vingadores”, seu personagem, o agente Phil Coulson, foi empalado pelo deus nórdico e vilão Loki, mas voltou, na maior elegância, para protagonizar o seriado do canal de TV ABC, “Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D.”.Nova York, EUA.

Talvez a melhor forma de interpretar essa ressurreição seja como uma rara segunda chance dada pela ingrata indústria cinematográfica. Gregg, porém, ator/diretor de 52 anos com um sorriso irônico e um senso de humor à altura, oferece uma perspectiva sardônica da carreira – que, segundo ele, morreu e voltou à vida inúmeras vezes, no que chama de “obsessão de Hollywood com o poder regenerativo do estrelato” e que considera, no mínimo, pouco saudável.

“Cada vez mais dá a impressão de ser o ideal norte-americano deste novo século”, diz ele com uma jovialidade tipo “O que vamos fazer?” durante o almoço que compartilhamos. “Você pode ser famoso por alguns segundos e morrer, mas isso não significa absolutamente nada”.

Essa é uma das ideias abordadas em seu novo trabalho, “Trust Me”, comédia de tons sombrios que acaba de estrear nos EUA. O filme, que ele escreveu e dirigiu, também é estrelado pelo astro, na pele de Howard Holloway, ex-ator mirim que hoje (mal) vive como empresário que representa outros atores mirins e que vê sua salvação em uma novata talentosa (Saxon Sharbino) com uma vida particular atribulada.

“Trust Me”, que Gregg realizou de forma independente, oferece sua visão satírica da futilidade do showbiz, mas, ao mesmo tempo, como seu autor acabou percebendo, é um comentário sobre si mesmo, artista eternamente insatisfeito, atraído pelo poder redentor que os holofotes parecem possuir e que agora espera encontrar formas mais construtivas de canalizar essa paixão. “Fui afetado diretamente por essa mania, achava que era o que me faria feliz”, confessa.

Sobre o novo filme, ele diz: “Não me toquei que era pessoal até começar a fazê-lo”.

Teatro. Formado pela Escola de Artes Tisch da Universidade de Nova York, Gregg foi um dos fundadores da Atlantic Theater Company, ao lado de David Mamet e William H. Macy, que o dirigiu em peças como “Boys’ Life”.

Em relação à formação da companhia teatral, Macy disse: “Acho que todos nós sonhávamos em explodir para uma carreira longa e promissora. Era o que queríamos de todo o coração”.

“Clark sempre foi incrivelmente competitivo e é muito ambicioso, mas, ao mesmo tempo, sempre foi cuidadoso com os pequenos detalhes”, acrescentou.

Em 2006, Gregg foi escalado para o sitcom do CBS, “As Novas Aventuras de Christine”, como o infeliz ex-marido da personagem do título, interpretada por Julia Louis-Dreyfus.

“Ele dava a impressão de poder ser sexy e atraente, mas, ao mesmo tempo, um idiota completo”, contou a atriz, às gargalhadas. “Era exatamente do que precisávamos, um pateta por quem ainda me sentia atraída, mas que continuava me irritando demais”.

Porém, como bem sabiam Julia e o resto do elenco, Gregg trabalhava na série ao mesmo tempo em que se dedicava à sua estreia na direção, “No Sufoco”, adaptação do livro de Chuck Palahniuk estrelada por Sam Rockwell, e já começava a trabalhar no roteiro que acabaria se tornando “Trust Me”.

“Você tem que ser multitarefa”, continuou a atriz que, depois de “Seinfeld” emplacou o sucesso “Veep”. “Esse ramo é assim. Nada dura para sempre, é preciso se mexer”.

Para Gregg, o desejo de fazer seus próprios filmes nasceu da necessidade de expressar as ideias que não poderia transmitir através dos projetos alheios.

“Como ator, você tenta imprimir sua marca na visão de outra pessoa. Tudo bem, mas chega uma hora em que quer falar de coisas que são importantes para você. E aí começa a compor, em vez de apenas tocar”.

No entanto, quando começou a escrever o roteiro, não o encarava com um veículo de atuação para si mesmo. A ideia inicial, explica ele, era analisar de forma mais abrangente, no melhor estilo Paul Thomas Anderson, os tipos mais desafeiçoados de Los Angeles.

Só que quando aplicou esse princípio a um “empresário fracassado que mente da mesma forma que respira”, confessa que começou a ver semelhanças pessoais.

“Era a história de um cara que tentava encontrar o que tinha perdido cuidando de uma jovem”, explica Gregg, que tem uma filha de 12 anos, Stella, com a mulher, a atriz Jennifer Grey.

“Tinha tudo a ver com a minha filha e acabei meio que dando um tiro no próprio pé. Eu fiz o papel de um fracassado e todo mundo acreditou que eu era a pessoa perfeita para interpretá-lo”.

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