No divã do Freud mineiro

Longa escolhido para encerramento traz auge criativo de Humberto Mauro e sexismo polêmico para os dias de hoje

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Desejo e reparação. “Ganga Bruta” traz olhar psicanalítico de Mauro sobre a sexualidade da época, o que o tornou alvo de críticas
Cinedia
Desejo e reparação. “Ganga Bruta” traz olhar psicanalítico de Mauro sobre a sexualidade da época, o que o tornou alvo de críticas

“Todo mundo que passa por esse filme modifica seu olhar sobre o cinema. Isso é definitivo”. A afirmação categórica do professor de cinema brasileiro da UNA, Ataídes Braga, é compartilhada pela grande maioria dos críticos, que consideram “Ganga Bruta”, realizado por Humberto Mauro em 1933, a obra-prima do cineasta.

“Ele é um dos 33 filmes mais importantes do mundo. E quem disse não fui eu, mas a Cinemateca Alemã”, afirma Alice Gonzaga, proprietária da Cinédia, detentora dos direitos do longa.

Para Braga, a produção é o somatório da experiência de Mauro em Cataguazes associada ao modelo industrial da Cinédia e um olhar mais apurado, envolvido e completo que a maioria dos diretores brasileiros da década de 30. Segundo ele, o longa representa ainda a síntese da temática principal da obra de Mauro, que afirmava que, para ele, “cinema é inserir o homem no seu ambiente”.

“No caso do ‘Ganga Bruta’, o homem é essa ganga, esse ser bruto que vai se purificando nas relações, começando com uma tragédia e terminando com a possibilidade de um idílio”, explica o professor.

No entanto, essa espécie de redenção pode causar estranhamento ao olhar contemporâneo, já que o longa acompanha um homem que assassina a esposa ao descobrir que ela não se casou virgem, e é absolvido pela Justiça.

“Era o código da época, um crime praticado pela honra, e a gente sabe que isso ainda existe hoje”, argumenta Braga. Para o professor, que exibe “Ganga Bruta” para seus alunos todo semestre, é esse peso da intriga moral e das relações de amor frustradas e problemáticas do filme que faz com que ele permaneça atual, ao contrário de outros romances ingênuos de Mauro, que não sobreviveram tão bem ao tempo.

“Os alunos entram na história e conseguem atualiza-la porque o longa está no conflito das relações humanas, o que vale é o amor que purifica, e isso não é datado”, defende Braga. Ele cita ainda como exemplo do requinte narrativo da obra seu caráter do que ele chama de uma “espiral em aberto”. “O filme começa com o plano da aliança, associado à tragédia do início. E termina com a aliança, selando o casamento e a possibilidade da felicidade no final. Mas é uma possibilidade em aberto”, analisa.

Essa abordagem complexa da psique de sua sociedade foi o que levou um dos críticos da época a usar a infame alcunha “Freud de Cascadura”, pela qual Mauro é conhecido ainda hoje. Massacrado pela crítica na ocasião de seu lançamento, “Ganga Bruta” só viria a ser exibido novamente em 1952. Nessa segunda chance, ele foi redescoberto pelos críticos que viriam formar a principal geração da cinematografia brasileira: o Cinema Novo. “Ali nasce a mitologia do ‘Humberto Mauro, pai do cinema brasileiro’ porque ele trouxe para aqueles jovens o que eles queriam filmar: o homem em contato com sua realidade”, explica Braga.

O professor acredita que o diretor de Cataguazes tem o mesmo efeito sobre a geração de futuros cineastas de hoje. “Ao contrário da minha, que cresceu há 20 anos aprendendo sobre Mauro apenas nos textos, já que os filmes dele não circulavam, eles estão vendo essas obras e é por isso que é fundamental mostras como essa”, avalia.

Para reforçar ainda mais o resgate da memória de Humberto Mauro, Alice Gonzaga propôs à Fundação Clóvis Salgado a edição de um livro com 80 cartas trocadas entre o mineiro e seu pai, o produtor Adhemar Gonzaga. “O material já está todo editado, as fotos escolhidas e meu desejo é lançar no ano que vem, durante a celebração dos 50 anos da Cinédia”, afirma Alice.

Segundo a Fundação, existe interesse no material, mas ainda não há nada oficial, nem um cronograma ou previsão de lançamento.

Programe-se

Encerramento da mostra “Humberto Mauro – O Grande Pioneiro do Cinema Brasileiro” Quando. Hoje e amanhã, às 20h30

Onde. Grande Teatro do Palácio das Artes – avenida Afonso Pena, 1.537, centro

Quanto. R$ 10 (inteira)

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