Sinfonia para Humberto

Retrospectiva Humberto Mauro chega ao fim com sessão de “Ganga Bruta” acompanhada pela orquestra sinfônica

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Sincronia. A Orquestra se prepara em um dos últimos ensaios realizados com o filme, na manhã de ontem, no Grande Teatro do Palácio
Paulo Lacerda
Sincronia. A Orquestra se prepara em um dos últimos ensaios realizados com o filme, na manhã de ontem, no Grande Teatro do Palácio

O mais surpreendente sobre o encerramento da mostra “Humberto Mauro - O Grande Pioneiro do Cinema Brasileiro”, que acontece hoje e amanhã com a exibição do clássico “Ganga Bruta” (1933) acompanhado da trilha original executada ao vivo pela Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, é que ele quase não aconteceu. O curador da sala e da mostra, Rafael Ciccarini, foi atrás da partitura, composta para o filme por Radamés Gnattali, no acervo da Cinédia, produtora e detentora dos direitos da obra. Lá, no Rio de Janeiro, ele descobriu que o único exemplar existente era uma cópia feita à mão em 1996, ano da última execução da trilha pelo maestro paulista Júlio Medaglia.

“Mas ela era muito velha e, como chegou aqui, era ilegível e intocável. Quase tivemos que cancelar”, explica o maestro da Sinfônica Marcelo Ramos, que rege as apresentações. Foi quando Alice Gonzaga, filha do fundador da Cinédia Adhemar Gonzaga e responsável pelo acervo do estúdio, propôs um acordo para a Fundação Clóvis Salgado. “Eu liberava a trilha, mas queria que eles digitalizassem a partitura para as comemorações dos 85 anos da Cinédia no ano que vem”, revela Alice.

O problema é que se tratava de 80 minutos de trilha distribuídos em 168 páginas. Segundo Ramos, copiar uma partitura assim nota a nota é um trabalho que dura em média quatro a cinco meses. “Nós tínhamos 25 dias. Fizemos um mutirão e uma verdadeira operação de guerra para digitalizar toda a obra a tempo”, conta o maestro.

Ao todo, o trabalho de revisão dos erros, digitalização da partitura e preparação da apresentação levou dois meses. Ramos explica que, apesar de a orquestra já ter feito algo parecido no ano passado, quando tocou ao vivo a trilha de “O Jardim dos Prazeres” na abertura da mostra “Hitchcock é o Cinema”, acompanhar um filme ao vivo é sempre muito delicado. “É mais difícil que ópera, porque tem muita gente envolvida, a logística e diferente”, confessa.

E com o cronograma mínimo, os músicos tiveram apenas dez dias para ensaiar a partitura, que ganha vida em sua forma nova e digitalizada pela primeira vez hoje. O maior desafio para eles, segundo o maestro, é não ter nenhum tempo definido na cabeça e “estar no momento”. “Tudo pode mudar em função de um movimento não combinado e, como a cena está correndo, a gente pode ter que adiantar ou atrasar. É estar preparado para o imprevisível”, provoca.

Melodia. Apesar do desafio de trazer toques de suspense hitchcockiano, Ramos explica que a apresentação de hoje à noite é bastante diferente da do ano passado. E o principal motivo está nas próprias obras.

“A trilha do Hitchcock trazia efeitos orquestrais muito bem pensados, mas não havia uma melodia que você saísse assobiando, ao contrário do trabalho romântico do Gnattali, que contém melodias fáceis e identificáveis pelo público”, analisa o maestro.

Ramos conta que ouviu a trilha de “Ganga Bruta” – história de um homem que mata a mulher com quem acabou de se casar ao descobrir que ela havia sido infiel e, absolvido pela justiça, reencontra o amor no interior com uma jovem comprometida – pela primeira vez em um CD com a versão original dos anos 1930. E o que mais lhe chamou a atenção logo de cara foi a mistura de vários estilos com um único traço em comum entre eles: a predominância da melodia.

Segundo o maestro, a obra traz temas românticos, religiosos, samba de gafieira, marcha fúnebre, um trecho da “Abertura 1812” de Tchaikovsky e uma fuga em estilo barroco. “O barroco é um estilo de poucos instrumentos, mas ele faz uma fuga com orquestra completa que é muito impactante”, avalia.

Outro traço marcante da trilha é a presença de canções populares. Ramos conta que Gnattali era um grande compositor para o violão e “Ganga Bruta” conta com duas serestas incidentais – “Teus Olhos... Água Parada”, de Radamés Gnattali, e “Coco de Praia”, de Heckel Tavares – e a marchinha de Carnaval “Ta-Hí”, de Joubert de Carvalho, que serão cantadas ao vivo por Bruno Graça e Renata Vanucci, ao lado dos 68 músicos da Orquestra. “Em uma delas, um personagem manda a cantora calar a boca e ela tem que parar imediatamente e interagir com a cena, o que é bem diferente”, adianta o maestro.

Além dessa oportunidade de exercitar seus músculos e passear por gêneros onde a sinfônica não transita normalmente, Ramos acredita que uma das grandes recompensas do projeto foi trabalhar com música brasileira. “Foi a chance de reviver um compositor brasileiro, aflorar sua obra e deixa-la disponível para outras orquestras”, celebra.

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