Um carro zero e um tormento

Consumidor teve que fazer uma verdadeira ‘via-sacra’ em concessionária e já entrou na Justiça

iG Minas Gerais | Juliana Gontijo |

Na mão. Tiago Cezar afirma que depois de toda a dor de cabeça perdeu a credibilidade na marca
JOAO GODINHO / O TEMPO
Na mão. Tiago Cezar afirma que depois de toda a dor de cabeça perdeu a credibilidade na marca

Uma das vantagens de ter um carro zero quilômetro, segundo o administrador de empresas Tiago Cezar Lima, é que ele demora a ir para a oficina. Entretanto, o seu Renault Duster, em um período de um mês, foi para o conserto quatro vezes na concessionária Minas France Renault, localizada no bairro Funcionários, região Centro-Sul de Belo Horizonte. “A pessoa compra um carro novo justamente para não ter problemas com a manutenção, o que deve ocorrer apenas anos depois”, diz.

Lima adquiriu o carro no dia 6 de março deste ano e recebeu o automóvel quase 30 dias depois, já que não havia o modelo no estoque. O primeiro problema foi o insufilme soltando. “A concessionária consertou. Verifiquei que as rodas dianteiras estavam enferrujadas e a justificativa do vendedor era que o veículo devia estar no pátio. Acabei relevando. Dez dias depois de ter recebido o carro, ele não pegava. Parecia que o carro estava afogando. Ele demorava de 15 a 20 minutos para pegar. Isso aconteceu em um domingo. No dia seguinte, levei o veículo na concessionária”, diz. Na primeira visita, dia 2 de maio, o Duster teve que ficar na concessionária para fazer os testes. “Assim, fiquei sem carro, pois paguei a entrada com meu carro antigo e mais uma parte em dinheiro – o que correspondeu a 60% do total. O restante eu financiei. Tive prejuízo, pois uso o carro para ir ao trabalho. Moro em Belo Horizonte e trabalho em Nova Lima”, frisa. Lima conta que foi feita a atualização do software do veículo, que é flex. “A explicação era que o carro não estava reconhecendo o combustível. Na oficina da concessionária, o veículo ficou por dois dias”, diz. Só que a história do administrador de empresas não termina aí. Ele voltou com o carro para o conserto no dia 8 do mesmo mês e o carro ficou na concessionária por mais três dias. “E quando chego lá, o carro não estava pronto. Abro o capô, verifico que estava faltando uma peça. O teste não tinha sido feito. Perdi quase um dia, pois cheguei cedo lá e sai de tarde”, indigna-se ele. Só que o problema, segundo ele, persistiu. No dia 17, foi realizado o terceiro atendimento na casa do consumidor. “Foi feito o rastreamento do veículo e foi constatado que seria necessário rebocar o carro até a oficina”, conta. Na oportunidade, ele chegou a pedir para que o carro fosse trocado ou que o contrato fosse rompido e o dinheiro devolvido. “Só que o coordenador disse que, primeiro, era necessário levar o veículo para análise”, frisa o administrador. Outra vez. Na segunda-feira, dia 19, ele ligou para solicitar o reboque, e o carro foi parar pela quarta vez na oficina da concessionária Minas France. “Consegui com muita dificuldade um carro reserva de padrão diferente do meu e ainda de outra marca. No contrato, estava previsto que o carro seria igual. E ainda tive que dar garantia. Eles passaram R$ 2.500 no meu cartão de crédito. Restituiram-me depois que devolvi o carro”, conta. E no dia 30 de maio, ele voltou à concessionária para pegar o carro. Lá, ele verificou que o para-choque dianteiro estava descascado. “Vi o veículo ser pintado a mão por um dos coordenadores da concessionária. Não me pareceu um serviço de qualidade”, conta. Desacreditado. Desde então, o carro não voltou a apresentar problemas. Entretanto, depois de tantas idas à oficina em pouco tempo, Lima afirma que perdeu a confiança na marca. “Fico esperando quando acontecerá outro problema. O que eu gostaria mesmo é que a empresa trocasse o carro ou, então, devolvesse o dinheiro para que eu pudesse comprar um veículo de outra marca”, lamenta. Ele esclarece que já ingressou com uma ação na Justiça. “Tive gastos com deslocamento, cheguei a perder dia de trabalho e ainda tive desgaste emocional com toda essa história. Hoje, estou com um carro zero, mas com a sensação de ter um velho, já que ele passou tantas vezes pela oficina. Não estou satisfeito e aguardo a decisão da Justiça”, frisa. O professor de direito da Universidade Fumec, Paulo Márcio Reis Santos, aconselha, para casos em que o defeito de um produto persiste, solicitar uma perícia judicial. “O ideal é ingressar com uma ação cautelar de produção antecipada de provas”, esclarece o advogado.

Provas

Precaução. Especialistas aconselham o consumidor a guardar todas as provas para eventual ação na Justiça, como e-mails, fotos e até mesmo um boletim de ocorrência.

Concessionária diz que problema foi resolvido A concessionária Minas France Renault, ao ser procurada pela reportagem, informou, por meio de nota, que “foram realizados três testes no veículo para constatar o problema reclamado pelo cliente. Nos três testes, o carro apresentou perfeito estado de funcionamento”, diz trecho do comunicado. A empresa informou ainda que o cliente Tiago Cezar Lima recebeu toda a assistência da Minas France Renault, inclusive com atendimento em sua residência. E mais: a concessionária fez questão de ressaltar que o veículo foi entregue em “perfeito estado de conservação e funcionamento”. Fabricante. A reportagem também procurou a montadora Renault. A assessoria de imprensa, também em nota, disse que após contato com o cliente, a empresa aguarda a disponibilidade dele para agendar uma visita à concessionária “para a diagnose do inconveniente, com a presença de um técnico da fábrica”.

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