Vizinhos estão perto, mas nem se importam

iG Minas Gerais | Thiago Nogueira |

A advogada Andrea Santos terá que liberar os funcionários e não poderá atender os clientes em dias de jogo
LEO FONTES / O TEMPO
A advogada Andrea Santos terá que liberar os funcionários e não poderá atender os clientes em dias de jogo

Os estádios da Copa do Mundo têm vizinhos por todos os lados. Mas o fato de estar perto do maior evento de futebol do planeta não empolga moradores ou quem trabalha na região.

A indiferença tem algumas explicações: ingressos caros, descontentamento com os gastos públicos do Mundial e, principalmente, transtornos que a competição irá causar na rua de casa ou do trabalho. A um quarteirão do Mineirão, nenhum dos funcionários de um escritório de advocacia vai a uma das seis partidas da Copa no estádio. “Não tenho o interesse. Eles têm um lucro milionário, e eu tenho prejuízo. São 15 funcionários que eu vou ter que dispensar mais cedo, além dos clientes que não conseguem chegar”, ressalta a advogada Andrea Santos, dona do escritório.

Por causa do Mundial, em dias de jogos no Mineirão, as ruas dos bairros do entorno são fechadas para o fluxo de carro. Apenas moradores podem trafegar, mas eles têm que parar seus veículos na garagem. A partir de determinada hora, apenas torcedores com ingressos conseguem acessar os limites da área Fifa.

Lamentos. Em outros cantos do país, tem gente que lamenta por estar de fora do espetáculo. É porque, às vezes, o trabalho fala mais alto. O comerciante Emerson Pinheiro mora do ladinho da Arena Pantanal, em Cuiabá, e não vai poder ir a nenhum dos quatro jogos na cidade.

Ele tem um restaurante nas imediações e precisa tomar conta dos negócios. “Fazer o quê, não é? Até pensei em ir em pelo menos um jogo, mas é um dia em que tem muito movimento. Tem aquele gostinho de decepção, mas a gente tem que pagar as contas. Nessas horas, a gente precisa estar presente para a satisfação do cliente”, justifica.

E olha que, para ele, um ex-goleiro de categorias de base do Mixto-MT, a frustração é ainda maior. Emerson jogou muita bola no antigo estádio Verdão, demolido em 2010 para dar lugar à Arena Pantanal. “Eu conhecia o estádio do vestiário às cabines de rádio e fui também muito às arquibancadas”, lembra ele.

Em Manaus, a poucos passos da Arena da Amazônia, o empresário Wilson Reis vive dia e noite os plantões de sua funerária. Embora, no passado, ele fosse um frequentador assíduo dos jogos do Nacional e do Fast no antigo Vivaldão – demolido para dar lugar à nova arena –, agora, logo quando o “quintal da sua casa” vai receber os jogos da Copa, ele vai ficar de fora. “Eu não gosto muito de tumulto. Não tenho mais aquele tesão. Se fosse jogo da seleção brasileiro, eu até iria”, pondera.

O Brasil, no entanto, não tem jogos marcados para Manaus e não será desta vez que Wilson assistirá à performance da seleção.

Moradias dão espaço a comércio Os jogos de futebol no Mineirão têm provocado uma mudança no perfil da região, principalmente das ruas mais próximas do estádio. Em uma rápida caminhada, nota-se que muitas residências se transformaram em casas comerciais. A reportagem conversou com alguns moradores que relataram diversos transtornos causados nos dias de partidas. Muitos torcedores fazem churrasco nas calçadas, urinam na porta das casas, atiram latinhas de cerveja nos lotes vagos e até escondem drogas nas residências. Nos comércios do entorno, é comum não se colocar placas com o nome do estabelecimento até para preservar a identidade de casa. Só a limpeza escapa das críticas, já que, no outro dia, o trabalho da prefeitura costuma ser rápido.

Rotina alterada

Na Granja Comary, em Teresópolis (RJ), os moradores do condomínio próximo à concentração da seleção brasileira também tiveram a rotina alterada. Para acessar as ruas próximas, é preciso uma autorização especial. Durante os treinamentos, vizinhos curiosos se aglomeram em uma cerca bem longe dos campos e, mesmo assim, costumam gritar os nomes dos jogadores, principalmente de Neymar, em busca de alguma atenção. A proteção do complexo é feita por 30 seguranças privados, além do apoio de policiais militares nas redondezas. Na porta da granja, uma viatura fica parada o tempo todo.

No cotidiano Do metrô. A estação Corinthians-Itaquera funciona bem ao lado do estádio paulista que irá abrigar a cerimônia e o jogo de abertura da Copa do Mundo. Por lá, chegam a passar 60 mil usuários em horário de pico. Quando a bola rolar, no dia 12 de junho, ou nas cinco partidas da arena, certamente haverá muita gente se deslocando no sentido leste-oeste. Realidade. A chegada do estádio fez o custo de vida, o comércio e a especulação imobiliária aumentarem na região. A criminalidade também subiu. Bem perto da Arena Corinthians, moradores da favela da Paz vivem um mundo bem diferente do que o da riqueza de uma Copa do Mundo. Falta de fornecimento de energia e saneamento básico são alguns dos problemas.

 

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