Dupla dinâmica e macabra

Amigos, Santiago Nazarian e Raphael Montes associam técnica literária a elementos do policial e do horror

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |


Com apenas dois livros, Montes será publicado em seis países
Bel Pedrosa
Com apenas dois livros, Montes será publicado em seis países

A combinação do paulistano Santiago Nazarian, 37, com o carioca Raphael Montes, 23, na edição do Sempre um Papo desta segunda à noite não é nenhum acaso. Além de representarem a jovem literatura contemporânea brasileira, os dois são amigos de longa data. Na verdade, Nazarian – que já participou do projeto antes – indicou o colega, já que, apesar de conversarem todos os dias, eles nunca haviam feito um debate juntos.

“O Nazarian fica implicando que ele é meu pai”, brinca Montes. A primeira vez que ele entrou em contato com o paulistano foi antes de lançar seu primeiro livro, “Suicidas”, de 2012. No email, ele afirmava ser fã da obra de Nazarian e pedia a opinião do autor sobre seu romance de estreia.

“Fiquei meio com o pé atrás. Um moleque novo, querendo que eu lesse o livro”, lembra Nazarian. Ele comprou “Suicidas” e descobriu que a obra tinha 400 páginas. “Fiquei impressionado que alguém daquela idade pudesse escrever com esse fôlego”, confessa.

Nazarian foi um dos primeiros a resenhar o romance, finalista dos prêmios Benvirá e Machado de Assis. Os dois se tornaram amigos e o paulista acompanhou todo o processo de criação de “Dias Perfeitos”, livro que Montes divulga na noite desta segunda e cuja tiragem de 10 mil exemplares está quase esgotada na Cia. das Letras. Já Nazarian apresenta o recém-lançado “Biofobia”, seu sétimo romance.

Além da amizade, os dois compartilham um estilo que associa elementos de gênero – o policial, no caso de Montes; e o horror, em Nazarian – à estrutura e densidade da literatura contemporânea. Mais que isso, a dupla briga por um espaço na literatura brasileira que não iguale gênero à literatura infantojuvenil.

“Lá fora, existem escritores com uma veia mais pop respeitados, como o Nick Hornby. No Brasil, não. Ou você é pop ou faz literatura”, argumenta Nazarian. “Eu bebo, vou ao cinema, festas, ouço músicas. É inevitável que esse caldeirão cultural acabe no meu texto. Mas eu não tenho uma preocupação de colocar cultura pop”, reflete Montes.

Para sobreviver nessa divisão, Nazarian acabou se voltando mais para o público jovem, na faixa dos 20 anos, em seus últimos trabalhos, “Mastigando Humanos”, narrado por um jacaré falante, e “Garotos Malditos”, sobre um adolescente que vai estudar num colégio para monstros. Com medo de ficar rotulado em um gueto, porém, o paulista volta ao universo adulto em “Biofobia”. Nele, o autor usa seu protagonista, um roqueiro quarentão enfrentando uma crise de meia-idade para discutir sua própria carreira e o momento de vida dele e de vários amigos de sua geração.

“É um cara que descobre não existir mais espaço para o som dele. O livro mostra que não tem mercado para coisas alternativas no Brasil, tanto na música quanto na literatura”, desabafa Nazarian. Isolado em uma casa no campo, o personagem enfrenta seus demônios e frustrações, num thriller de narrativa cinematográfica, à la “O Iluminado”.

Já Téo, o solitário estudante de medicina que protagoniza “Dias Perfeitos”, perde sua sanidade ao ser rejeitado por Clarice, uma aspirante a roteirista. Determinado a conquista-la, ele sequestra a garota e parte numa viagem descrita no roteiro que ela está escrevendo.

O jovem autor conta que a inspiração do romance veio de uma provocação da mãe. Preocupada com o título do primeiro livro do filho, “Suicidas”, ela sugeriu que ele escrevesse uma história de amor. “Eu aceitei e fiz uma fábula de amor no extremo oposto dos contos de fadas, num mundo perigoso, macabro e danoso aos envolvidos”, brinca.

Apesar de não seguir a estrutura clássica, para Montes, o livro é um romance policial. “Mais que crime e investigação, me interessam as causas e as consequências de um crime, como a literatura fala de nós mesmos. Todos já tivemos um amor frustrado”, justifica.

Além dos interesses macabros, Montes e Nazarian compartilham uma agenda lotada e multimidiática. O paulista foi um dos roteiristas da série “Passionais”, ainda inédita no GNT, escreveu um longa e está trabalhando em outro seriado. Já o carioca está escrevendo um longa, supervisionando a adaptação de “Suicidas” pela RT Features, desenvolvendo uma série policial para a TV aberta, criando uma peça e trabalhando no próximo romance para o ano que vem.

Como se fosse pouco, Montes ainda tem uma vida bastante ativa nas redes sociais. “Fala para os leitores me adicionarem no Raphael Montes II no Facebook porque o primeiro perfil lotou”, avisa.

Programe-se

Sempre um Papo – Santiago Nazarian e Raphael Montes

Quando. Nesta segunda, às 19h30

Onde. Sala Juvenal Dias, Palácio das Artes – avenida Afonso Pena, 1.537, centro

“Biofobia” (Record, 240 págs., R$ 30)

“Dias Perfeitos” (Cia. das Letras, 280 págs., R$ 35)

Quanto. Entrada franca

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