Ganhar copas de verdade

iG Minas Gerais |

A Copa do Mundo chega agora como um contrassenso, apesar da paixão nacional que a envolve e apesar de tudo e mais alguma consideração em relação ao futebol brasileiro. Poder-se-iam justificar os gastos com um torneio de poucos dias aproveitando-se da meia dúzia de bons estádios que existem no país. Revitalizados ou, como diz meu amigo, “embelezados”, atenderiam a Copa como se deu na África do Sul. Aqui não, a responsabilidade de nossos representantes legitimamente eleitos fez com que a construção de estádios de nível mundial se desse por valores absurdos, alguns em localidades que hospedam apenas times “de várzea”. Mesmo que fosse o Brasil uma Arábia com petróleo farto e barato, não se justificaria gastar R$ 29 bilhões sem busca de sustentabilidade e retorno. Pior, num desperdício inaceitável num país em que faltam remédios em postos de saúde. O padrão Fifa, “de primeiro mundo”, acentua a disparidade com a péssima qualidade do ensino público, com os baixos salários de professores e ainda com a decrepitude do sistema de saúde. Convidaram-me no mês passado para uma palestra sobre empreendedorismo na UFMG, e, aguardando minha vez do lado de fora da sala, numa passarela que liga os andares de prédios, fiquei enjoado pelo cheiro que subia da ala de banheiros. Pois é, se aí estão a nata da nossa juventude e a mais qualificada das instituições de ensino público de Minas Gerais, pode-se imaginar o estado do resto. E os hospitais, os postos de saúde, as cadeias públicas, as delegacias de polícia e por aí afora, tudo ou quase em estado de sucateamento. Com raras exceções, o que está sob o cuidado público é uma porcaria. Locais de trabalho e de convivência de todos os dias no Brasil estão em padrão de quinto mundo, caóticos, desorganizados, precários. Incompreensível assim aceitar o gasto e a maluquice do padrão Fifa para um torneio efêmero, que se esgotará em poucos dias, deixando no rastro esses estádios acintosos, que monumentalizam o despautério da nossa classe dirigente. Isso leva a lembrar a opulência do palácio de Versalhes e a miserabilidade dos becos de Paris que levaram a plebe a destronar a poderosa monarquia francesa. Essa época no Brasil nunca chega para dar início à responsabilidade social. Aqui não há monarquia, mas existe uma burocracia, igualmente ou mais deletéria, que se encastela em palácios, trafega em carros de chapa fria e jatos movidos a impostos, pisa em tapetes que são aspirados todos os dias. Creio que, nas eleições de outubro, os votos, em significativa parcela, especialmente dessa massa de indecisos que nunca se registrou, darão um duro recado à irresponsabilidade. O voto de mudança, de contestação, de revolta está aí latente para castigar e renovar o sistema que precisa e tem que mudar. Felizmente, os “projetos de poder” sem compromisso outro que não a partição do latifúndio público correm o risco de fracasso. Trem-bala com gastos que equivalem à solução da mobilidade pelo metrô nas principais capitais do país, transposição de águas de um rio esgotado que nem atende seu compromisso atual, estádios de “marajás” para inglês ver, obras que têm como finalidade o assalto ao dinheiro público, isso na realidade precisa de outra forma que responda a clareza, sustentabilidade, honestidade, competência, virtude, que secaram no Brasil igual à bacia da Cantareira ou à de Três Marias. O Brasil ganhará muitas copas, não efêmeras, se conseguir mudar essa lamentável situação moral, social e econômica que escurece seu horizonte.

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