Compra cultural às cegas

Sofar Secret Festival e Secret Cinema seduzem público com atrações musicais ou filmes em locais secretos

iG Minas Gerais |

Cena. “Brazil, o Filme”, longa de Terry Gilliam, foi a atração do Secret Film, em Londres
Cena. “Brazil, o Filme”, longa de Terry Gilliam, foi a atração do Secret Film, em Londres

SÃO PAULO. Comprar um produto de olhos vendados parece loucura. Não para o público do Sofar Secret Festival, projeto musical que acontece hoje em São Paulo. Quem desembolsou entre R$ 50 e R$ 85 para ir ao show não sabe quais artistas tocarão ou que gênero ouvirá. É o segredo em torno das atrações e do local da festa que atrai o público, diz o organizador da coisa no Brasil, o produtor Dilson Laguna. 

“Fui pelo aspecto de surpresa”, diz a analista de mídias Andreia Magalhães, 26, que participou de uma versão pequena do evento, em maio. O ritual é sempre o mesmo: a plateia se senta no chão para assistir aos shows e permanece em silêncio o tempo todo, em um clima de luau. Bandas independentes tocam no centro de uma sala, num bar ou até mesmo num salão de beleza. Antes, as pessoas podem conversar com os artistas sem saber que eles serão a atração da noite.

Para participar, os espectadores se inscrevem num site, recebem por e-mail o endereço dois dias antes e só descobrem a programação na hora.

Sofar significa “songs for a room” (canções para uma sala), conceito criado em Londres em 2010 por dois amigos que queriam apresentações musicais mais intimistas. Desde então, shows mensais, gratuitos e limitados a 70 pessoas se espalharam por cidades que vão de Viena, na Áustria, a Mumbai, na Índia.

No Brasil, o projeto nessa versão pequena e mensal acontece desde 2012 em seis capitais, mas o festival para um público maior estreia neste domingo. “Todos estão soterrados com a oferta artística e querem uma curadoria”, diz o norte-americano radicado em Londres Rafe Offer, 48, criador do Sofar. “As pessoas procuram um consumo cultural renovado, diferente das formas massivas atuais, que consistem em ir aos lugares só para fotografar e publicar, sem vivência daquilo”, analisa o sociólogo Dario Caldas, do escritório de consultoria de tendências Observatório de Sinais.

As versões grandes dessas reuniões só aconteceram em Londres em duas ocasiões, quando reuniram 500 pessoas. O festival que acontece em São Paulo tem capacidade para 600 lugares.

CINEMA. Outro evento londrino, o Secret Cinema, se vale do segredo para atrair espectadores. Em 2013, 25 mil pessoas foram ver a distopia “Brazil: O Filme” (1985), de Terry Gilliam, sem saber que esse era o filme escolhido no projeto. O espectador também participa de uma encenação do filme: ele é informado por e-mail do endereço da exibição e do figurino que deve vestir.

No caso do longa “Um Sonho de Liberdade” (1994), por exemplo, o público vestiu roupas de prisão. A experiência de encenação chega a durar seis horas. Para o britânico Fabien Riggal, fundador do Secret Cinema, o público deseja viver aventuras, e não apenas sentar e ouvir passivamente. Para a próxima exibição, desta vez já anunciada, haverá a reconstrução, em um local secreto de Londres, da cidade ficcional de Hill Valley, onde se passa o filme “De Volta Para o Futuro” (1985).

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