Olhos que refletem uma alma

Com a exposição “Genesis” em cartaz no Palácio das Artes, o fotógrafo falou sobre o início de sua paixão com a câmera

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Recluso. Tímido, Salgado não gostava de fotografar com muita gente em volta porque suas mãos sempre tremiam
LEO FONTES / O TEMPO
Recluso. Tímido, Salgado não gostava de fotografar com muita gente em volta porque suas mãos sempre tremiam

Aos 6 anos, o menino Tião só queria ser um piloto de caça da Força Aérea Brasileira (FAB) e se orgulhar de percorrer os céus do mundo em missões fantásticas de combate. Acontece que ele nunca foi da guerra. Criado em Aimorés, na região mineira do Vale do Rio Doce, o garoto franzino e doce cresceu correndo no pasto da Fazenda Bulcão, onde o pai lhe ensinou a reparar a chegada da chuva, o brilho do sol e a atenuar as desigualdades sociais ao dividir a terra com outras 35 famílias de trabalhadores. Todas as influências líricas de infância são a base para o aclamado trabalho de Sebastião Salgado. Hoje, aos 70 anos, o velho Tião conversou com o Magazine sobre a sua própria gênesis até se tornar fotógrafo: a primeira vez que manuseou uma Pentax, o laboratório fotográfico informal aberto dentro do próprio quarto para vender fotos a estudantes de Paris, o repúdio antigo ao flash, que ele confessa não ter aprendido a usar até hoje, além da birra recente com o Instagram.

Como foi seu primeiro contato com a fotografia?

Tive um quase primeiro contato com a fotografia ainda no Espírito Santo, em 1964, quando fui para lá cursar a faculdade de economia. Eu estava no primeiro ano do curso e namorava a Lélia (Wanik, sua mulher). Eu morava numa pensão no centro de Vitória, e um senhor chamado Neco, com quem eu ficava de papo às vezes, fazia parte do Foto Clube da cidade. De tanto ele me falar em fotografia, me interessei. Mas, no dia que ele marcou um encontrou para eu conhecer o Foto Clube, eu e Lélia esperamos até 12h e ele não apareceu. Talvez eu tivesse me apaixonado de vez ali, dez anos antes de entrar de verdade na fotografia. O senhor lembra a primeira vez que manuseou uma câmera, a primeira foto...?

Lembro perfeitamente até hoje. Foi somente em 1970, quando eu estava em Paris prestes a fazer doutorado em economia. A Lélia estudava arquitetura na Escola de Belas Artes e comprou uma Pentax SpotMatic II para fotografar prédios e construções. Foi aí que eu vi pela primeira vez através de uma lente. Desde aquele dia em que passeamos por Paris fotografando pessoas, carros e ruas, a fotografia fez uma invasão total dentro de mim. Eu podia selecionar, parar movimentos, controlar luz, eu tinha um prazer tão grande de trabalhar contra a luz, de conseguir detalhes lutando contra a luz. Depois disso o senhor se rendeu à fotografia?

Não imediatamente. Comecei a relacionar o que eu via no visor com as pinturas do artista holandês Rembrandt, que têm uma presença de luzes que me chamava muito a atenção na época. Visitamos o Museu de Rembrandt, na Holanda, e minha primeira série de fotos foram das pinturas dele em preto e branco, porque não achei filme colorido. Ali começou meu gosto pelo P&B, meio por acaso, claro. O senhor chegou a fazer aulas de fotografia?

Não. Aprendi tudo sozinho, comprando livros, vendo fotógrafos em atividade, e testando exaustivamente a luz e o enquadramento. Um amigo jornalista mineiro, Antônio Beluco Marra, tinha aprendido a revelar fotos no Rio e me ensinou. Como o senhor começou a se profissionalizar?

Não digo que foi uma profissionalização, mas em 1971 resolvi montar um estúdio dentro do meu próprio quarto, na Cidade Universitária, em Paris. Gastei dinheiro com produtos químicos, papel de revelação e ampliador. Comecei a pregar anúncios nos três restaurantes da faculdade oferecendo serviços de cópia e revelação de fotos, que me rendiam um dinheirinho para financiar meu hobby. Comprei duas lentes de 24 mm e 200 mm para a Pentax, que só vinha com a 50 mm. Mas aí roubaram nossa Pentax de dentro do nosso fusca, em Amsterdã. Enlouqueci para comprar outra e acabamos adquirindo uma Nikon F, a melhor câmera da época. Quando você largou a carreira de economia e qual a lembrança dos primeiros trabalhos?

Larguei a economia em 1973, em uma das minhas últimas expedições à África que fiz pela Organização Internacional do Café, onde eu trabalhava em Londres – eu levava a máquina para todo canto e, nesse ano, senti que as fotos me davam mais prazer que os relatórios econômicos. Lembro que meu primeiro projeto foi fotografar o Jorge Amado e o escritor português Ferreira Castro. Mas um dos que mais me marcou foi quando comprei um flash para cobrir para a revista “News Week” a Revolução dos Cravos, em 1975. Eu nunca tinha usado flash, acertei apenas 10% do que fotografei à noite, mas fiz aquela capa mesmo assim. Até hoje não sei usar flash, tomei ódio e descobri no balanço de luzes do P&B, que posso retratar os sentimentos que sempre quis sem flash. O que o senhor acha das novas tecnologias para a fotografia, como o Instagram?

Nem sei o que é Instagram direito e não tenho a menor vontade de conhecer esse recurso artificial. O fato é que a fotografia como eu pratico vai acabar. O que vai sobrar é a imagem digital, editada, tratada várias vezes até não ter mais a alma que você captou no momento do clique. Isso não é pra mim.

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