Suor honorífico e degradante: a conta do sucesso

iG Minas Gerais |

É de gota em gota de suor que se vai longe, ou não se vai a lugar nenhum
Intervenção sobre flores imitando gotas d’água ou vice-versa
É de gota em gota de suor que se vai longe, ou não se vai a lugar nenhum

Até pensei em medir quanto suamos, mas achei bobagem. Prefiro mostrar quanto pagamos ou ganhamos para suar. Expressa em R$, a coisa fica mais bonita. Ou mais feia, dependendo do ponto de vista de quem paga ou recebe. Além disso, tentarei descobrir as diferenças entre suor nobre e suor plebeu. Já que estamos no mês da Copa, mas não escreverei sobre futebol, meu primeiro exemplo será um gênio da bola. Messi, é claro. De modo geral, um jogador perde entre três e quatro quilos a cada partida. Digamos 3,5 quilos em média. O peso perdido é suor (cloreto de sódio e ureia). Uma partida normal dura 90 minutos. Isso significa que Messi perde 38,88 miligramas de suor por minuto. Pronto para continuar? PREÇO DO SUOR Messi ganha € 20.000.000,00 por ano. Valor líquido, sem impostos. Digamos que o euro esteja valendo hoje R$ 2,50. Temos então R$ 50.000.000,00. Divididos por 365 dias = R$ 136.986,30 diários. Divididos por 90 minutos = R$ 1.522,07 por minuto, em campo ou fora dele. (Note que não arredondei para não complicar.) Só que Messi ganha esses milhões para jogar, e não para dormir, passear, dar entrevistas ou autógrafos. De modo que podemos refazer nossas contas e dividir seu ganho anual pelo tempo em campo. Sem contar os treinamentos, óbvio. BOLA DE OURO Assim, os R$ 50.000.000,00 devem ser divididos pelo número de partidas disputadas a cada ano. Vamos admitir 80, número bem razoável, uma média de três jogos a cada duas semanas, ou um a cada cinco dias. R$ 50.000.000,00 divididos por 80 = R$ 625.000,00 a cada partida. Em nova divisão, teremos: R$ 625.000,00 divididos por 90 = R$ 6.944,44 por minuto de atuação. Ou ainda R$ 115,74 por segundo. É um valor incrivelmente alto, mas trata-se do jogador de futebol mais bem pago do mundo. Que, aliás, merece. Além disso, recorri a um exemplo banal e conhecido de todos, pois não fui à lista dos bilionários da “Forbes”, que apenas interessa a economistas, fofoqueiros e chantagistas. BOLA DE BARRO Um ajudante de pedreiro ganha em média R$ 40,00 por dia (de oito horas). Ou cerca de R$ 5,00 por hora e R$ 0,08 por minuto. A diferença não é tão grande assim. Considerando esses valores, o ajudante terá recebido, no fim do ano, R$ 14.600,00 reais. A diferença anual entre ele e Messi é de apenas R$ 49.985.400,00. Para ganhar o que Messi ganha num ano, nosso ajudante de pedreiro precisaria trabalhar 3.425 anos, o que não chega a ser exorbitante. Num exemplo coletivista, seria preciso juntar os salários de 3.425 ajudantes de pedreiro para equilibrar as receitas anuais. GOTAS DE SUOR Voltemos ao pinga-pinga. Vimos que Messi perde 40 miligramas de suor por minuto trabalhado. Como recebe para jogar e suar, e não para dormir, como esclarecido acima, podemos aprofundar nossos conhecimentos sudoríficos, botando para trabalhar as glândulas sudoríparas e nossa aritmética elementar. Ficou mais fácil, não ficou? Ganhando R$ 6.944,44 por minuto, basta dividir esse valor pelo suor, para obter R$ 115,74 pelo minuto suado ou ainda R$ 2,89 para cada miligrama de suor. É evidente que não me atrevo a calcular outros valores, como o de cada gota de suor, tanto de Messi quanto do ajudante de pedreiro. Caso você se interesse, é só continuar descendo a pirambeiras dos reais, dos centavos e dos suores.

DICOTOMIA Dado este primoroso exemplo, posso voltar ao que nos interessa, ou seja, àquilo que está anunciado desde a semana passada: o suor honorífico e o suor degradante. Para início de conversa, esclareço que o suor de Messi pode ser considerado exemplo típico de suor honorífico: ela ganha – e ganha muito – para suar. Já o suor do ajudante do pedreiro é o exemplo típico do suor degradante, já que ganha pouco – muito pouco – também para suar. O que diferencia – a essa altura acredito que você já saiba – os dois tipos de suor, é seu valor social: o suor honorífico engrandece, o suor degradante – como a palavra indica – avilta. Claro que virá correndo um politicamente correto qualquer, botando os bofes pela boca e suando, para me gritar que o trabalho do ajudante de pedreiro nada tem de degradante, ou aviltante. Ah, não? Então, meu senhor, tire seus filhos do colégio particular que lhe custa os tubos e coloque-os hoje mesmo como aprendizes de ajudante numa das tantas obras que existem por aí. A R$ 5,00 por hora, claro. VASECTOMIA Apenas para concluir por hoje, já que o assunto promete, proporei interessante problema, envolvendo um cirurgião competente e um paciente complacente. O paciente, cujo nome não interessa, decidiu fazer vasectomia, pois considerava camisinha um dispositivo (sic) broxante e, além disso, não queria se dar a todos aqueles cuidados pré-rela-rela. Preferia coisa mais light. Bem sucedida, a operação custou R$ 5.000,00. Sabendo que preço de camisinha varia entre R$ 05,0 e R$ 1,50, pergunto: 1) Quantas trepadas deverá praticar o paciente até cobrir o valor da operação, sem contar o custo pós-operatório, pago em remédios, dores e abstenção? 2) Mais vale um gosto do que seis vinténs? Perceberá o astuto leitor que, neste último tópico, só enchi linguiça. Mas o assunto é tão rico, tão delirante, que prefiro continuar na próxima semana.

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