Uruguaios buscam manter produção artística retomada com os anos 2000

Devagar e sempre. Conheça a seleção cultural do Uruguai na literatura, no cinema e na música

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Seleção cultural. Conheça o que o Uruguai exporta para o mundo além do futebol
Seleção cultural. Conheça o que o Uruguai exporta para o mundo além do futebol
Separado da Argentina pelo rio do Prata, o Uruguai, apesar de ser menor que o seu vizinho, não tem expressões artísticas menos relevantes. Guardadas as devidas proporções com aquele país, em relação ao volume de habitantes e de recursos, o segundo também vem experimentando um crescimento na oferta de filmes e músicas, embora no plano da literatura as novidades caminhem a passos mais lentos.    Dono de uma das cinematecas mais antigas da América Latina, fundada em 1952, o Uruguai vive uma retomada do seu cinema desde o início dos anos 2000. De acordo com Francisco Cesar Filho, um dos curadores do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, isso ocorre porque até meados da década de 1990, o país sofreu com a drástica redução de sua população jovem.    “Por conta da ditadura militar (1973-1985), eles viveram uma situação atípica em relação aos outros países da América Latina. Houve um esvaziamento da camada jovem e isso se refletiu na cena audiovisual que começa a ter realizadores com maior projeção a partir de 2000. Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, com os filmes ‘25 Watts’ e ‘Whisky’, respectivamente foram responsáveis por colocar a cinematografia uruguaia no circuito internacional”, explica Cesar Filho.   De lá para cá, ele percebe uma diversificação dos filmes uruguaios e ressalta duas vertentes: o documentário e a animação. Já na seara musical, Yumber Vera Roja, jornalista do “El País”, acrescenta que No Te Va Gustar é hoje o principal grupo uruguaio em atividade. “Porém o discurso artístico reverberado por eles me aparece um pouco anacrônico”, diz o crítico argentino. Por outro lado, ele ressalta que há alguns nomes a se dedicar melhor os ouvidos.   “Apesar dos momentos de criação plena e de escassez, o Uruguai sempre tem uma oferta artística interessante. O que tem chamado mais a minha atenção ultimamente são os cantautores do calibre de Franny Glass, Max Capote e Dani Umpi”, acrescenta Yumber Vera Roja. No campo da literatura, o escritor e jornalista uruguaio Diego Recoba observa que o contexto está de certa forma estagnado. Apesar de em 2007, de acordo com ele, ter havido uma boa safra de novos escritores, como Damián González Bertolino, Inés Bortagaray, Ramiro Sanchiz, Rodolfo Santullo, e Andrés Ressia, a maioria escreve cada vez menos.   “O mais preocupante é o setor editorial. Apenas quatro casas publicam sistematicamente narrativa contemporânea e o fazem cada vez menos. Isso contribui para restringir o surgimento de novas vertentes”, revela Diego Recoba. Mas, se comparado há duas décadas, o presente é melhor. “Hoje, com a existência de editoras independentes, dos blogs, entre outras plataformas alternativas de publicação, tem sido possível descobrir novos escritores”, afirma ele.     
  • / MÚSICA
  •   Martín  Aclamado pela versatilidade com que utiliza diferentes instrumentos, Martín Buscaglia se encaixa entre os músicos que mesclam vertentes folclóricas com ritmos da música universal. Em seus shows ele se alterna entre baixo, guitarra, entre outros. Ao longo de sua trajetória, já fez parcerias com outros artistas, como Arnaldo Antunes e Julieta Venegas. Seu disco mais recente é “Catacuentos en Su Casa” (2011).     Dani Umpi Multiartista, Dani Umpi atua como cantor, escritor e artista visual. Amplamente conhecido em outros países do Cone Sul, como a Argentina, além do Uruguai, sua terra natal, ele afirma buscar referências em movimentos como a Tropicália e a Arte Pop. Com apresentações performáticas e lúdicas, o artista é elogiado, sobretudo, pelo carisma e pela vasta experimentação visual dos figurinos e cenários dos seus shows. O primeiro disco, “Perfecto”, foi lançado em 2005.    De lá para cá, produziu outros seis álbuns, sendo o mais recente “Hijo Único” (2012). Ao mesmo tempo que trouxe a público o seu novo CD, Umpi também publicou o seu décimo livro de carreira, fruindo assim de projeção crescente. Em razão da maneira como imprime carga dramática ao que faz, sua imagem vem sendo acompanhada de opiniões que avaliam o seu trabalho como algo localizado entre o sofisticado e o estranho.       
  • / CINEMA
  •   Soderguit Diretor de “Anina”, longa-metragem de animação lançado em 2013, Alfredo Soderguit é representante do gênero que também mostra seu vigor atualmente no Uruguai. O trabalho circulou por festivais internacionais, conquistando grande sucesso onde foi exibido e foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro no ano passado. Provocou interesse não só a estética, mas a opção do diretor que evitou a febre do 3D.    Pablo Stoll Ao lado de Juan Pablo Rebella, com quem estudou comunicação social, o cineasta produziu seus primeiros curtas até lançar em 2001, “25 Watts”, e, em 2004, “Whisky”. As duas comédias conquistaram grande repercussão, o que elevou o nome de Stoll e Rebella como importantes referências do cinema uruguaio atual. Apesar da morte de Rebella em 2006, Spoll deu sequência ao seu trabalho, lançando em 2009 o título “Hiroshima”.    Em sua primeira direção sem o antigo parceiro, ele filma o cotidiano do seu irmão Juan André. A narrativa se impõe quase sem diálogos e os que existem são pouco audíveis. Há dois anos, Spoll também realizou “3”. O filme mergulha no ambiente de uma família de classe média, acompanhando os passos de Rodolfo, um dentista que resolve retomar os laços com a ex-mulher e a filha. Neste, o humor e a ironia se mantêm como marca do diretor.     
  • / LITERATURA
  •   Daniel Mella Com seu primeiro livro, “Pogo”, publicado em 1997, o escritor atraiu para si os olhares do público e da crítica uruguaia. No ano seguinte, manteve o ritmo e lançou “Derretimiento”, título que lhe trouxe mais visibilidade. Desde então, Mella começou a ser apontado como uma das principais promessas da literatura uruguaia contemporânea. Seu segundo volume, por exemplo, alcançou boa recepção de críticos que chegaram a avaliá-lo como um marco na produção literária daquele país. Em 2000, ele voltou à cena com “Noviembre” e, só depois de mais de uma década, ele apresentaria “Lava”, em 2013.    A antologia traz contos que constroem retratos sobre a fragilidade das relações humanas. Os sutis e às vezes imperceptíveis rumos que alteram o curso das coisas e levam o amor ao desamor, por exemplo, são temas presentes nas narrativas. Ainda que os assuntos tratem de questões contundentes, é frisado como o autor consegue equilibrar as situações ásperas com humor e leveza.    Bortagaray A presença dos livros da escritora Inés Bortagaray é recente no Brasil. “Um, Dois e Já” é o primeiro dela que foi publicado aqui em março deste ano. Desde então, vem provocando a empatia de leitores que ressaltam a delicadeza da escrita apresentada pela uruguaia. O romance, narrado em primeira pessoa, é baseado nas memórias de uma garota que vive no contexto da ditadura militar. 

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