Sons de infância e natureza

Maria Bethânia lança “Meus Quintais”, álbum que esbanja elegância para expressar bucolismo e inocência

iG Minas Gerais | Daniel Barbosa |

Dindi. Em “Meus Quintais”, Bethânia registrou “Dindi”, de Tom Jobim, que só havia cantado em show
Tomás Rangel
Dindi. Em “Meus Quintais”, Bethânia registrou “Dindi”, de Tom Jobim, que só havia cantado em show

A começar pelo título, “Meus Quintais”, o novo disco de Maria Bethânia, entrega os sentimentos que guiaram a concepção e realização do trabalho. Também o repertório, com canções como “Xavante” e “Arco da Velha Índia”, ambas de Chico César, “Casa de Caboclo” e “Candeeiro Velho”, que levam a assinatura de Roque Ferreira, “Moda da Onça”, de Paulo Vanzolini, ou “Povos do Brasil”, de Leandro Fregonesi, não deixa muitas dúvidas sobre a temática que perpassa o álbum: os índios, a mata, os rios, o folclore.

“Não pensava em fazer disco por agora, queria fazer somente ano que vem, quando completo 50 anos de carreira. Mas senti o desejo de cantar o homem do Brasil, o caboclo, o dono da terra, o índio. Isso veio de forma muito intuitiva”, diz, acrescentando que a primeira pessoa para quem ligou para ajudar a desenvolver a ideia foi Chico César, que efetivamente foi seu parceiro de primeira hora em “Meus Quintais”. Na esteira vieram Adriana Calcanhotto, que a partir do direcionamento de Bethânia compôs “Uma Iara”, Fregonesi, com sua “Povos do Brasil”, e os outros autores.

Com as canções reunidas em mãos, Bethânia convocou músicos do quilate de André Mehmari, Maurício Carrilho, Jorge Helder, o trio Tira Poeira, Marcelo Costa, Luciana Rabelo, Wagner Tiso, entre outros, que se revezam ao longo das faixas, tocando e criando os arranjos.

“Em ‘Meus Quintais’, os músicos são autores, mesmo que não estejam assinando nenhuma canção ou cantando. Eu jogava uma ideia de uma canção, um verso, um pensamento sonoro e eles iam ali criando. É diferente de chamar para cada faixa um arranjador. Eles ficaram brincando em várias situações rítmicas, harmônicas, foi muito alegre, parecia quintal mesmo”, diz.

Em termos estéticos, o resultado dessa alquimia fica com um pé nos folguedos populares e outro na sala de concerto, o que pode evocar trabalhos pregressos da cantora, como “Pirata” ou “Brasileirinho”. Conceitualmente, entretanto, há diferenças, conforme pontua Bethânia. “O ‘Brasileirinho’ era o Brasil, o ‘Meus Quintais’ é meu, uma coisa pequenininha. Ali era o sentimento do povo brasileiro, aqui é pessoal”, diz.

E ao dizer isso ela introduz outro mote na equação do álbum: a infância. “O quintal foi onde aprendi tudo, porque tinha a casa, o alimento, o agasalho, o amor, o ensino, mas o quintal era a liberdade. Todo mundo pode tudo no quintal, eu acho que é uma coisa de primeiros passos. A gente gostava das brincadeiras loucas e também dos silêncios, da observação. Quintal é onde aprendi a água, a folha, o vento, aprendi a cantar, a errar, acertar, namorar. Tudo começa ali. Esse disco é para os meus, para os da minha casa, a dedicatória é essa, de um modo geral”, diz, ressalvando que não há nenhum traço de saudosismo nessa ideia. “Carrego a criança em mim, ela é que faz tudo”, destaca.

Em relação aos projetos futuros, Bethânia diz que pensa em fazer um show ou turnê comemorativa por suas cinco décadas de carreira em 2015, usando “Meus Quintais” como “contraponto” para um repertório que abrangeria toda sua carreira. Outro desejo é gravar um álbum só de piano e voz com André Mehmari, que a acompanha nesse formato em “Alguma Voz”, a faixa que abre “Meus Quintais”. “Seria um disco com o Mehmari fazendo essa coisa de Brasil, que ele conhece tão bem, me ensinando, e eu com a coisa do Recôncavo. Acho que ia ficar uma coisa bonitinha, quem sabe?”, acena.

Entalhes

Em “Meus Quintais”, Bethânia revela uma faceta pouco conhecida – a de artesã: o encarte traz fotos de entalhes em madeira que ela faz.

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