A própria Terra está tomando consciência de sua enfermidade

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DUKE
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Inegavelmente, vivemos uma crise dos fundamentos que sustentam nossa forma de habitar e organizar o planeta Terra e de tratar os bens e serviços da natureza. Na perspectiva atual, eles são totalmente equivocados, perigosos e ameaçadores do sistema vida e do sistema Terra. Temos que ir além. Dois pais fundadores de nosso modo de ver o mundo, René Descartes e Francis Bacon, são seus principais formuladores. Viam a matéria como algo totalmente passivo e inerte. A mente existia exclusivamente nos seres humanos. Logicamente, essa compreensão criou a ocasião para que se tratasse a Terra, a natureza e os seres vivos como coisas de que podíamos dispor ao bel-prazer. Na base do processo industrialista selvagem está essa compreensão que persiste ainda nos dias de hoje. As coisas, no entanto, não são bem assim. Tudo mudou quando Einstein mostrou que a matéria é um campo densíssimo de interações; mais ainda, ela, de fato, nem existe no sentido comum da palavra: é energia altamente condensada. Em 1924, Edwin Hubble, com seu telescópio no monte Wilson, no sul da Califórnia, descobriu que não há apenas a nossa galáxia, a Via Láctea, mas centenas delas. Notou, curiosamente, que elas estão se expandindo e se afastando uma das outras com velocidades inimagináveis. Tal verificação levou os cientistas a imaginarem que o universo observável era muito menor; um eco ínfimo do Big Bang pode ser ainda identificado, permitindo a datação do evento, ocorrido há 13,7 bilhões de anos. Mas uma das maiores contribuições que vêm desmantelando o velho olhar sobre a Terra e a natureza vem do prêmio Nobel de química Ilya Prigogine. Ele deixou para trás a concepção da matéria como algo inerte e passivo e demonstrou, experimentalmente, que elementos químicos, colocados sob certas condições, podem organizar-se a si próprios sob complexos padrões que requerem a coordenação de trilhões de moléculas. Nem sequer existem códigos genéticos que guiem suas ações. A dinâmica de sua auto-organização é intrínseca, como aquela do universo, e articula todas as interações. O universo é penetrado por um dinamismo autocriativo e auto-organizativo que estrutura as galáxias, as estrelas e os planetas. De tempos em tempos, ocorrem emergências de novas complexidades que fazem aparecer, por exemplo, a vida consciente e humana. Toda essa dinâmica cósmica tem seus tempos próprios. Especialmente os organismos vivos têm seus tempos biológicos próprios, um para os micro-organismos, outro para as florestas, outro para os animais, outro para os oceanos e, por fim, outro para cada ser humano. Completado seu tempo, ele parte. Que fizemos nós modernamente para gestar a crise atual? Inventamos o tempo mecânico e sempre igual dos relógios. Ele comanda a vida e todo o processo produtivo, não tomando em conta os demais tempos. Ao não concedermos um sábado, biblicamente falando, para a Terra descansar, nós a extenuamos, a mutilamos e a deixamos adoecer quase mortalmente, destruindo as condições de nossa própria subsistência. Neste momento, estamos vivendo um tempo em que a própria Terra está tomando consciência de sua enfermidade. O aquecimento global sinaliza que ela vai entrar em outro tempo. Se continuarmos a feri-la e não a ajudarmos a se estabilizar em outro tempo, podemos começar a contar as décadas que inaugurarão a tribulação da desolação.

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