Trilha sonora da memória

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Não sei tocar nenhum instrumento, nem pandeiro, nem berimbau, nem triângulo, nem apito. Minha tentativa de aprender piano durou cinco aulas na infância, se muito. Canto bem mais ou menos. Sou, no máximo, entoadinha, como diz minha mãe, mas tenho semancol suficiente para não me exibir nem em karaokê. Ainda assim, a música é parte essencial da minha biografia e, principalmente, um ativador instantâneo de memória. Tenho dúvida nenhuma de que é assim com a maioria. E Eduardo Coutinho tinha menos ainda quando transformou a trilha sonora das lembranças no documentário “As Canções”. O filme é de 2011 e teve uma passagem tão fugaz pelos cinemas de Belo Horizonte, que ganhou no ano seguinte sessões na mostra “Passou Batido”, que reúne no Humberto Mauro os filmes que têm passagens fugazes pelos cinemas de Belo Horizonte. Não consegui assistir em nenhuma das ocasiões, apesar da vontade grande. Daí a alegria quando o descobri entre as sugestões da NET na semana passada. Dos 91 minutos de filme, devo ter transbordado em pelo menos 72 deles. A fórmula é simples e incrivelmente eficiente. Anônimos se sentam em uma cadeira no meio de um palco nu e respondem a uma única pergunta: “Qual é a música que marcou a sua vida?”. A partir daí, mulheres e moços, gente jovem e nem tanto, com enormes buracos na alma ou apenas suspiros no meio do peito cantam suas histórias e trazem de volta o que já não é ou quem não está mais. E é lindo. Fiquei comovida muitas vezes e isso quer dizer que chorei um tanto com o moço que vira criança diante da música que a mãe cantava enquanto vestia as noivas da cidade, com o filho que compõe a falta do pai, com a namorada que cumpriu o juramento de só ter um pensamento e ser só dele até morrer e com a meninice de Déa Franco, que aos inacreditáveis 82 anos, ainda pede: “Onde você estiver, não se esqueça de mim”. Queimado, um dos personagens reais do filme, depois de exibir seu caso de amor ao som de Jorge Benjor, faz uma pergunta fundamental: “Como que alguém que gosta de alguma coisa faz para lembrar se não gosta de música?”. Porque é só ouvir Maria Bethânia ou Secos e Molhados para visitar a tia Cida e ter de novo as aulas de música popular brasileira. É começar a tocar “Rock Around the Clock” pra fazer voltar as sessões de twist promovidas pela minha mãe na sala de casa. É alguém incluir Blitz na playlist para que as apresentações para a sempre disponível tia Bete voltem a fazer festa em tardes cinzentas. É buscar “Aleluia”, de Händel, para experimentar uma festa de réveillon entre queridos em pleno junho. Desde que meu pai morreu, no começo deste ano, muita coisa faz a saudade crescer e doer. As fotos que foram ficando cada vez mais minguadas, a cadeira vazia na calçada da José Cândido da Silveira, um telefonema para festejar os 40 anos da irmã quase gêmea. Mas nada é mais poderoso que as músicas que me levam até ele. Porque quando escuto Chico, não é a falta que me ocupa. É, sim, a presença e o que vai durar pra sempre. “Somos a memória que temos, sem memória não saberíamos quem somos”, foi o que disse Saramago. E não faltam passaportes para as lembranças. Mas enquanto não inventarem um app que disponibilize cheiros através de um buscador, a música vai continuar sendo um dos meios mais acessíveis de contar a nós mesmos quem somos. P.S.: Se você é dos meus, não deixe de ver “As Canções”. Está na íntegra no YouTube, aquele site que também pode ser usado como um arquivo de emoções.

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