Dois momentos do barroco

A mostra “Barroco Itália Brasil – Prata e Ouro” será inaugura terça-feira em novo espaço da praça da Liberdade

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Obra. A “Sant’Ana com A Virgem Menina” é um das 16 esculturas pertencentes ao Museu do Tesouro de São Genaro que vão estar expostas
Jmuseu do tesouro de são genaro/divulgação
Obra. A “Sant’Ana com A Virgem Menina” é um das 16 esculturas pertencentes ao Museu do Tesouro de São Genaro que vão estar expostas

Quando Giorgio Leone, curador da mostra “Barroco Itália Brasil – Prata e Ouro”, a ser inaugurada na próxima terça-feira (10), na nova sede da Casa Fiat de Cultura, na praça da Liberdade, conheceu Ouro Preto, ele teve a sensação de estar em uma das cidades do Sul da Itália. O que lhe provocou esse efeito foi justamente o contato, principalmente, com a arquitetura das suntuosas igrejas da cidade, além das diversas esculturas que encontrou naqueles templos.

Para ele ficou clara a presença da herança do barroco, desenvolvido em Roma no início do século XVII, depois levado à Espanha e a Portugal, de onde chegou até os países da América Latina, entre eles o Brasil. As afinidades possíveis de serem identificadas nesses diferentes momentos do estilo, que aqui tem sua maior representatividade por meio do trabalho de artistas como Aleijadinho, Francisco Vieira Servas e Mestre Valentim, dentre outros, são, assim, sublinhadas nessa mostra.

“Como no Sul da Itália, onde havia menos recursos disponíveis do que em Roma, os materiais empregados no Brasil eram semelhantes. Em Ouro Preto, por exemplo, encontramos esculturas feitas em madeira revestida por lâminas de metal precioso. Essa mesma estratégia foi usada com frequência naquela região”, compara Giorgio Leone.

Grande parte oriunda do Museu do Tesouro de São Genaro, localizado em Nápoles, as peças italianas a serem conhecidas aqui não se encaixam nessa categoria. Todas foram produzidas em prata ou ouro, o que reflete a grande atividade dos ourives daquela cidade desde o século XV.

“Nápoles chegou a ter, em apenas um quarteirão, cerca de 350 oficinas de ourivesaria. Não só praticamente toda a prata que vinha da Espanha era tratada nesses espaços, como 70% das esculturas feitas com esse material e espalhadas por várias partes da Europa eram produzidas ali”, pontua Paolo Jorio, diretor do Museu do Tesouro de São Genaro.

Dividida em dois preciosos acervos, que colocam lado a lado a produção italiana e brasileira, somando 40 trabalhos ao todo, a exposição conta também com a curadoria de Angelo Oswaldo. O presidente do Instituo Brasileiro de Museus pontua que no país a profissão de ourives era proibida durante o período colonial, época em que o barroco floresceu no Brasil.

“Por esse motivo, os artistas daqui se dedicaram à madeira em pleno ciclo do ouro. Surge um grande prodígio em Minas Gerais, que foi Aleijadinho, e diversos outros nomes que exibimos nesse projeto. Mestre de Piranga, um anônimo que viveu na vila do Rio Piranga, ao Sul de Ouro Preto e Mariana, é um deles”, observa Angelo Oswaldo.

Outro frisado por ele é Mestre Valentim. Nascido em Serro, de acordo com Oswaldo, Valentim depois se mudou para o Rio de Janeiro, onde se sagrou um dos maiores artistas da capital. “Dele nós trazemos duas obras que pertencem ao Museu Histórico Nacional. São duas representações de apóstolos que nunca foram exibidas em Belo Horizonte. Eles pertenciam à Igreja de Santa Cruz dos Militares, localizada no centro do Rio, mas no início do século XX foram levadas para o museu”, diz o curador.

Oswaldo ainda destaca Alfredo Ceschiatti, criador dos anjos expostos na catedral de Brasília, e Maurino de Araújo, dois artistas mineiros que apontam a continuidade da tradição barroca com o presente. “Queremos mostrar que a arte sacra produzida em Minas Gerias não parou no século XVIII e manteve a sua vitalidade até o presente, ainda que tenha assumido novos caminhos”, completa.

Do conjunto italiano, Giuseppe Sanmartino e Lorenzo Vaccaro são alguns dos criadores destacados pela também curadora Rossella Vodret. Para ela, as esculturas desenham uma panorama da arte barroca concebida em Nápoles, a partir do seus principais artistas, que, muitas vezes trabalham coletivamente. É o caso, por exemplo, de “Imaculada Conceição” (leia mais na página 2). “Nesta foram reunidos os esforços de Giuliano Finelli, Onofrio D’Alessio, Giaocmo Colombo, Giuseppe Tregloia, e Tommaso Treglia. Uma única obra levava anos para ficar pronta e além de escultores, participavam pintores e ourives”.

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