Com as cores do país

iG Minas Gerais |

Pouco me importa a ditadura da patrulha ideológica: completei o álbum da Copa 2014. Ou melhor, completamos: eu e meu filho. Juntos equilibramos a caça por cada figurinha. Houve gasto, é claro. Nada que ultrapassasse o orçamento. A derradeira foi a de número 552. Fabian Johnson, da seleção dos EUA. Esperava algum país ou jogador mais representativo para o grande final, mas o destino quis que o último cromo fosse o do zagueiro. Ele não demorou a chegar. Veio no domingo passado, das mãos do Iltinho, mais um amigo apaixonado por futebol. Do álbum para a torcida foi um pulo. Vai ter Copa, e escolhi o Brasil. Mas o envolvimento e o gosto pelo futebol não me tornaram cega. Não vou aplaudir a forma como o evento foi realizado. Na verdade, se pudesse escolher, o Mundial nem seria em nosso país. Não pela questão esportiva do projeto, mas pela politicagem e pelas intenções por trás do evento. Foi um festival de excessos e erros. Só não dá para esquecer que o Brasil já andava todo errado. Os problemas são anteriores ao título de sede. O povo está cansado da corrupção. Vive o medo da violência a cada instante. Ninguém consegue mais se deslocar com eficiência. O transporte público só é eficaz nos projetos. Sobrou pouca esperança em relação à mobilidade. Dinheiro dos cofres públicos sai a toda hora. Só não retorna em benefícios para os brasileiros. Honestidade é festejada quando deveria ser regra básica. Se vier de político, então, vira excelência. Faz tempo que o quadro é crítico. Como eu, tem muita gente indignada. Só que, para os radicais de plantão – a tal turma da patrulha ideológica à qual me referi no início desta coluna –, quem critica não pode torcer. Aliás, nada pode. As proibições são tão rígidas quanto as da Fifa nos estádios. Quem faz o álbum é incoerente. Comprar camisa? Absurdo. Gostar de futebol? Futilidade diante do caos. Sinceramente, que se dane! Ninguém nem nenhum pseudoconceito vão me roubar esses prazeres... De abrir o pacote de figurinhas, de brigar para decidir quem vai colar os cromos ou de riscar no papel os jogadores conquistados. A alegria de voltar à infância ao lado do meu filho, um atleta de futebol, ninguém vai me tirar. O Lucas e os amigos sonham em, no futuro, se tornar figurinhas. Talvez poucos consigam chegar a um grande clube, embora tenham potencial. A disputa é grande. Ainda assim, serão sempre boleiros, apaixonados. Nasceram em 2002, ano em que a seleção brasileira foi pentacampeã. Não se recordam, é claro. Agora, desejam a conquista do caneco. E com a intensidade típica da idade, vibram, brincam e se encantam. E é assim que deve ser, já que o caminho pela frente – da vida adulta – será árduo.  Ser torcedora não faz de mim alienada. Também não me faz aprovar a corrupção. Vestir a camisa da seleção me faz lembrar outros Mundias –- derrotas e vitórias ao lado de amigas queridas. Íamos comemorar ou choramingar nas ruas. Eram tempos de menos violência. Também não sou contra os protestos. Acredito que uma manifestação é a forma mais justa de dar visibilidade a causas e categorias. Babaquice é a pancadaria durante os manifestos. Fiz, sim, o álbum da Copa 2014. Foi um entusiasmo jogar no time do meu filho. Vê-lo folhear cada uma das páginas, deslizar a mão sobre o papel como se o acariciasse. A Copa será uma lembrança boa de uma infância que chega ao fim. Ainda me lembro das figurinhas do Amar É que a tia Adelina nos dava. Também dos livros e das bonequinhas de papel. Poderia descrever com detalhes as histórias que ela nos contou. Alguns guardados não se apagam. São resgates afetivos de dias especiais. Não me importa o que a “patrulha” vai pensar. Vou vestir a camisa e guardar na memória esta Copa e o que vier com ela.

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