Caldeirada de Macapá

O Gastrô acompanhou a Expedição Fartura Gastronômica, projeto do Festival Cultura e Gastronomia Tiradentes, para conhecer a rica culinária do Amapá

iG Minas Gerais | Fabiano Fonseca |

Farinhada. Diversos tipos do derivado da mandioca, que passa por processos
Rusty Marcellini
Farinhada. Diversos tipos do derivado da mandioca, que passa por processos

Macapá, Amapá. Açaí, farinha, peixe e calor, muito calor. Não, Macapá não se resume a isso. Mas a tríade gastronômica e a temperatura dão uma ideia do que podemos encontrar na capital amapense. A convite da Expedição Fartura Gastronomia, projeto realizado pelo Festival Cultura e Gastronomia Tiradentes, o Gastrô visitou Macapá, participando das atividades da expedição – que vem, desde 2012, mapeando a cadeia produtiva gastronômica do Brasil.

Banhada pelo rio Amazonas e apadrinhada por São José, Macapá parece um país à parte. Única capital brasileira cortada pela linha do Equador, a cidade não possui interligação por rodovias a outras capitais. Aportar por lá, somente por barco ou avião – nesse caso, passando por Belém (PA). Com cerca de 450 mil habitantes, Macapá, como não poderia deixar de ser, reserva delícias gastronômicas. Afinal, trata-se de uma região amazônica, onde o exotismo, expresso especialmente nas frutas, dita o movimento comensal da cidade. Entre muricis, bacuris, tapeberás e cupuaçus – a grande estrela da região –, é possível se deleitar com uma enormidade de sabores, cheiros e texturas. Somado a isso, a força do açaí e a simplicidade da farinha, comuns ao nosso cotidiano, tornam a gastronomia local distinta quando combinados.

Sob o comando do curador do projeto, Rusty Marcellini, os “expedicionários” Adriana Benevenuto (produtora), Tiago Miranda (cinegrafista), Felipe Correa (operador de áudio) e Lucas Campolina (cinegrafista) passaram uma semana na cidade, visitando restaurantes, feiras, entrevistando produtores e uma série de personagens responsáveis por tornar a cadeia produtiva gastronômica macapense rica e saborosa. De carona, a chef Mara Salles, do restaurante Tordesilhas, em São Paulo, a jornalista espanhola Macarena Soto e o Gastrô participaram dessa aventura, conhecendo um pouco mais dos sabores que a região reserva.

Açaí, o carro-chefe.Em uma simples caminhada pelas ruas de Macapá é possível observar a importância do açaí na culinária da cidade. Por todos os cantos, placas vermelhas nas calçadas anunciam que por ali encontra-se a fruta. Essa importância é não só na gastronomia local, mas também na do Estado, pois o fruto representa 2/3 do Produto Interno Bruto (PIB) do Amapá, movimentando cerca de R$ 15 milhões por ano.

Diferentemente do que se vê no Sudeste, por lá o açaí tem lugar especial no prato dos macapenses. Servido a qualquer hora do dia, ele é um dos principais acompanhamentos para peixes grelhados, servidos no almoço. Sim, parece um molho para acompanhar o peixe. Jogue uma farinha por cima e você é praticamente um nativo da região.

Mais ralo e muito mais forte e amargo do que estamos acostumados por estas bandas, o açaí é figura presente na rotina de muitos macapenses desde criança. Caso de Aldecy Carvalho de Almeida, proprietária do Açaí da Ananda. “Sempre trabalhei com açaí. Quando pequena, colhia no pé”, conta ela, que no seu próprio estabelecimento consegue processar e produzir o açaí para o consumo. “Ele é todo aproveitável. Além do que conhecemos, nessa forma líquida, o caroço do fruto é usado para fazer outros produtos, como óleos, perfumes, artesanato”, explica Aldecy.

Mandioca. Tão comum quanto o açaí, a farinha é outra estrela das receitas de Macapá e de toda a região Norte. Como dito, os dois combinados são iguaria e das mais comuns por lá, tipo pão com manteiga. Não só a farinha, mas tudo o que a mandioca permite, em especial o tucupi e a tapioca, outros derivados da raiz – no caso do tucupi, derivado da mandioca brava.

A 17 km de Macapá, a Comunidade do Coração é uma referência na produção de farinha. Famílias, geração após geração, se especializam no plantio da mandioca e na produção de farinha e seus derivados. Erinaldo Siqueira, o Erinho, é um deles. Ele, seu pai, Manoel, sua mãe, Juliana, e seus dois irmãos, Eucinaldo e Edelson, fazem da farinha a principal renda familiar. “Embora todas as famílias da comunidade produzem farinha, cada um faz do seu jeito. Por aqui, desde criança, todos trabalhamos com a farinha”, orgulha-se o produtor Erinho.

* O jornalista viajou a convite da Expedição Fartura

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