Irmã não consegue enterrar operário vítima de explosão

Devido às queimaduras, corpo de Irismar dos Santos ainda não pôde ser identificado; parente diz que mãos foram dilaceradas e restaram só 4 dentes na arcada dentária

iG Minas Gerais | Dayse Resende |



Tristeza.
 Desolada, Eliete Pereira dos Santos mostra foto do irmão carregando o neto, de apenas 2 meses
FOTO: MOISES SILVA / OTEMPO
Tristeza. Desolada, Eliete Pereira dos Santos mostra foto do irmão carregando o neto, de apenas 2 meses

A família do operador de retroescavadeira Irismar Pereira dos Santos, 50, morto depois de ser atingido por uma explosão em um aterro sanitário às margens da BR–381, na quinta-feira (29), enfrenta um drama para liberar o corpo dele no Instituto Médico Legal (IML) e enterrá-lo. Segundo a irmã de Santos, Eliete Pereira dos Santos, devido às graves queimaduras, não está sendo possível fazer o reconhecimento da vítima por meio de identificação. Por isso, será necessário fazer exame de DNA, o que torna o processo demorado. “O acidente foi tão trágico que o meu irmão perdeu todas as digitais das mãos e só restaram quatro dentes”, diz. Veja entrevista abaixo:

 

Há quanto tempo o seu irmão trabalhava no aterro? Ele estava lá há cinco anos. Como você o definiria? Meu irmão sempre foi um homem trabalhador. O que mais nos entristece é saber que ele morreu defendendo o pão de cada dia da família. Como vocês estão se sentindo depois desse acidente? Perdidos. Meu irmão deixou dois filhos e um neto, de apenas 2 meses. A minha cunhada está muito abalada. Os dois eram muito unidos. Ela tinha uma vida dedicada a ele . Como foi que vocês souberam da explosão? Um advogado da Essencis (empresa onde Santos trabalhava) foi à casa da minha cunhada e contou o que havia acontecido. Desde então, nossa vida virou de cabeça para baixo. Não esperávamos passar por tudo isso. Quando o corpo de seu irmão foi encontrado? Na quinta-feira (29), mesmo dia do acidente. Os bombeiros encontraram os restos do corpo dele no mesmo local da explosão. Por que vocês ainda não enterraram o corpo dele? O acidente foi tão trágico que o meu irmão perdeu todas as digitais das mãos e só restaram quatro dentes em sua arcada dentária. Estamos sem rumo. Diante dessa situação, não está sendo possível reconhecer o corpo dele e fazer a liberação no IML para poder enterrá-lo. Onde o corpo dele está?

Nos dois primeiros dias, ele ficou no IML de Betim, mas, no sábado (31), fomos informados de que não havia geladeiras disponíveis para mantê-lo lá até conseguirmos fazer o reconhecimento. Funcionários do necrotério nos disseram que, por causa disso, ele seria enterrado como desconhecido e, depois de reconhecido, caso quiséssemos, deveríamos desenterrá-lo e fazer um novo sepultamento, desta vez, por conta da família. Como não concordamos, eles transferiram o corpo dele para o IML da Gameleira, em Belo Horizonte.

Quais medidas vocês já tomaram? Já fomos ao IML várias vezes. Dissemos que funcionários da Essencis que trabalhavam na empresa na hora do acidente viram somente ele operando a retroescavadeira. Ninguém se queixou do desaparecimento de outro operário. Portanto, infelizmente, não tem como o corpo não ser o do meu irmão. Vocês sabem o que aconteceu? Um colega de trabalho do meu irmão nos contou que os entulhos já haviam acabado de ser prensados, quando ele deu marcha a ré na máquina para desligá-la e ir almoçar. Foi então que eles perceberam uma faísca. Meu irmão tentou abrir a porta e descer do carro, mas não deu tempo e houve a explosão. A empresa tem dado assistência a vocês? Não. Sábado (31) foi o único dia em que um homem, se identificando como advogado da empresa, procurou a minha cunhada. No mais, tudo tem sido por nossa conta, desde gastos com transporte a telefonemas. O que está sendo mais difícil para a família? Primeiro, foi saber do acidente. Depois, que o meu irmão havia sido totalmente carbonizado. Agora, não poder sepultá-lo. Nossa família queria prestar a última homenagem a ele. Queríamos enterrá-lo na mesma cova onde a minha mãe está. Isso tem nos angustiado muito. Quais serão os próximos passos? Sinceramente, não sabemos. Somos uma família de baixa renda. Não temos condições de pagar um advogado para nos ajudar. Mas queremos que seja feita justiça. O local do acidente ainda não foi interditado. O que eles estão esperando? Morrer mais gente? Queremos respostas. Precisamos virar essa página em nossas vidas.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave