Câncer mata, mas o amor é lindo

Longa conta com bom elenco, mas não vai além da fórmula do romance

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Estrelas. Amigos na vida real, Woodley e Elgort dão vida á fórmula do roteiro
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Estrelas. Amigos na vida real, Woodley e Elgort dão vida á fórmula do roteiro

“A Culpa És Estrelas” é como um músico que tem um Stradivarius perfeito e afinado em suas mãos e decide tocar uma música do Coldplay. Não chega a ser um crime, é bonitinho, mas é inquestionavelmente um desperdício.

O violino em questão é a excelente Shailene Woodley. Assim como em “Divergente”, a atriz mais uma vez encontra o equilíbrio entre a sabedoria de uma garota que viveu mais do que sua idade sugere e a fragilidade e a inocência de uma adolescente comum. Os diálogos do filme são daqueles que te beliscam, pisam no seu pé e xingam sua mãe para te fazer chorar, mas Woodley simplesmente pede que você respeite sua protagonista Hazel.

E quando você considera que a garota sofre de um câncer agressivo desde os 13 anos, isso é mais forte que qualquer arroubo emocional da história. Sem amigos e com “pulmões incompetentes”, Hazel se considera “uma granada prestes a explodir”. Ela mantém todos à distância até conhecer Gus (Ansel Elgort, irmão de Woodley em “Divergente”, num caso de incesto ficcional) em um grupo de apoio. Vítima de câncer nos ossos, ele desafia a garota a viver seus dias ao invés de esperar a morte.

Esse é o princípio de “A Culpa É das Estrelas”, baseado no best-seller infantojuvenil de John Green. Para ele, não há um significado poético ou uma grande lição no câncer. Como no livro lido por Hazel, a história mostra como padecer da doença é “morrer no meio de uma frase”. O sentido e a poesia só podem ser encontrados na vida.

Roteiro. O problema é que, a partir do momento em que Hazel e Gus se encontram, o roteiro e o diretor Josh Boone parecem não saber como desenvolver essa ideia. A química incontrolável entre Woodley e Elgort torna óbvio aonde a aproximação entre os dois vai dar. E todas as cenas e situações que tentam postergar isso acabam repetitivas e cansativas, como a mania de Gus de manter um cigarro na boca sem acender para provar que “tem poder sobre aquilo que me mata”.

Todo o tempo gasto com o idílio amoroso – charmoso, mas nada surpreendente – dos dois poderia ser usado para explorar outras relações. Logo no início, por exemplo, uma das melhores frases do filme é “a única coisa pior que morrer de câncer é ver seu filho morrer de câncer”. Isso cria a expectativa de que esse delicado laço entre Hazel e seus pais será desenvolvido, mas o longa simplesmente desperdiça o talento de Laura Dern como um sorriso indestrutível que não é nada mais além da mãe que quer ver a filha feliz.

O próprio Gus é um personagem muito pouco aprofundado. Ele é a famosa “namorada”, que serve de catalisador para o arco da protagonista. Isso torna a história um romance ainda mais previsível, cujos eventos parecem menos elementos orgânicos no retrato realista do câncer que o filme se propõe a fazer, e mais ingredientes de uma receita pré-cozida desde “Love Story”.

Esse aspecto formulaico é ainda mais surpreendente quando se leva em conta os roteiristas do longa. Scott Neustadter e Michael H. Weber são os responsáveis por dois dos melhores exemplares recentes do gênero, “(500) Dias com Ela” e “The Spectacular Now”. O talento deles se mostra nos diálogos entre Hazel e Gus, e na autenticidade do universo adolescente representado, mas pouco se reconhece aqui da inventividade de seus trabalhos anteriores.

E a direção fraca do inexperiente Josh Boone (“Ligados pelo Amor”) não ajuda. O principal sintoma da falta de confiança em sua mise-en-scène é o uso indiscriminado de canções a cada cinco minutos. Pela metade do filme, o diretor já usou um iPod inteiro de músicas para dizer quando o espectador deve se sentir triste, feliz, apaixonado ou apreensivo, ignorando que a própria cena já deixa isso bem claro.

O recurso funciona em uma série feita a toque de caixa, como “Grey’s Anatomy”, mas aqui é tão sutil e óbvio quanto dizer que câncer mata e o amor é lindo. Ninguém precisa de um filme para saber disso. E se o longa não vai além, a culpa não é das estrelas. Em um filme que só quer te fazer chorar, Woodley e Elgort são a única razão para sorrir.

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