Como explicar?

iG Minas Gerais |

Uma amiga que há mais de 15 anos mora na Nova Zelândia está de malas prontas para o Brasil e me liga apavorada: – Laurinha!!! Tô morrendo de medo da confusão aí. Aqui só saem notícias negativas das coisas que estão acontecendo. – Calma, menina!!! Nada com que você não esteja acostumada... A única novidade é que o povo, finalmente, se conscientizou de que as coisas precisam mudar e, por isso, está indo às ruas protestar. – E a quebradeira? – pergunta ela, já sabendo do que ocorreu no ano passado e, provavelmente, ocorrerá neste. Quer saber dos black blocs, do Exército na rua, da polícia inteira do país de prontidão durante a Copa. Tento acalmá-la, até porque, sinceramente, não creio que as manifestações se repetirão como em junho de 2013, quando surgiram, de maneira espontânea, envolvendo da juventude à terceira idade, dos assalariados às classes média e alta, enfim, toda uma sociedade que clamava por mudanças. Tudo muito bacana, muito positivo, até surgirem os baderneiros... Tranquilizo-a mais uma vez, e acabamos rindo no telefone, já que ela, por mais que tente, não consegue explicar o Brasil ao seu marido, neozelandês. A ele, é inconcebível, em sua cabeça anglo-saxônica de primeiríssimo mundo, captar o nosso “jeitinho” de resolver as coisas, a nossa capacidade de arrumar e solucionar problemas, nossa incrível criatividade e humor para fazer piada até mesmo nas desgraças. A nossa maneira única de enxergar as coisas, sem dramas, sem estresse, sem pressa e, principalmente, sem seriedade. A mania de “deixar pra lá”, deixar pra depois o que já deveria ter sido feito há muito. Somos um povo acomodado que, finalmente, desperta para seus direitos, reivindicando prioridades. Só espero que, despertando para os direitos, não nos esqueçamos dos deveres, que também são muitos e nem sempre levados a sério. Como explicar ao marido de minha amiga, quase um lorde inglês, que no Brasil traficantes comemoram gol do seu time com tiros de metralhadora pro ar, que nem foguete? Como explicar que grevistas e manifestantes (certamente com justas reivindicações) fecham rodovias e avenidas impedindo o ir e vir de gente, mercadorias, ambulâncias e trabalhadores que não têm nada a ver com a história? Por que não se firmarem na porta do prefeito, das Assembleias, do governador ou da presidente? Ou da empresa/instituição em que trabalham? Como explicar ao marido de minha amiga que em uma dessas inúmeras manifestações, no meio de uma rodovia, as coisas foram resolvidas no tapa? Que ônibus lotados de torcedores fanáticos, cansados da viagem, decidiram, por conta própria, desimpedir o caminho com foguetes, tiros e pancadaria? Como explicar que, em plena capital do país, um soldado é atingido por uma flechada? E lembro o drama recente vivido por um amigo em Brasília. Segundo ele, a confusão já começou no aeroporto. Uma hora e meia aguardando dentro do avião. Primeiro no ar, porque não tinha vaga embaixo, depois, no meio da pista, porque não tinha escadinha para descer do avião nem ônibus para transportar os passageiros à sala de desembarque. Isso, na capital do país!!! Imagina!!! No caminho, duas horas e meia dentro de um carro, em meio ao caos. De um lado, manifestação dos sem-teto; do outro, dos índios protestando contra mudanças na lei de demarcação de terras e, no meio de tudo, jovens e estudantes, apoiando todos. Nem é preciso dizer que meu amigo perdeu sua reunião e seu dia, naturalmente. E, por fim, como explicar ao marido de minha amiga que foi investido um “Everest” de dinheiro público na construção de estádios em cidades que nem sequer têm time de futebol??? Argumentamos tudo isso e, como boas brasileiras, preferimos deixar pra lá, até porque, por mais que expliquemos, ele nunca entenderia mesmo! Só espero que façam uma boa viagem, e seja lá o que Deus quiser! Assim como espero que os turistas que virão para cá sejam muito bem recebidos. E que a festa da Copa seja boa para eles, afinal, os torcedores não têm nada a ver com os erros e problemas que acontecem em nosso país.

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