O teatro como parlamento

Montagem espanhola “Pendente de Voto” substitui atores no palco por debate entre espectadores na plateia

iG Minas Gerais |

Plateia. Em “Pendente de Voto”, o protagonista é a própria plateia, que decide questões propostas
Belfast Festival / Divulgação
Plateia. Em “Pendente de Voto”, o protagonista é a própria plateia, que decide questões propostas

São Paulo. Inspirado pelo talento com que políticos fazem teatro, o encenador espanhol Roger Bernat resolveu testar sua habilidade em fazer política. Ele transforma teatro em parlamento em “Pendente de Voto”, espetáculo que será apresentado pela primeira vez em São Paulo no próximo fim de semana. A peça integra a mostra “Multitude”, evento em cartaz até agosto no Sesc Pompeia, que reúne exposição multimídia, espetáculos de teatro e performances sobre o tema multidão.

Não há atores no palco. Os espectadores comandam a cena. Recebem controles remotos individuais na entrada do local. Com os controles, o público “governa” o teatro, votando ao vivo em questões polêmicas. “Acredito que o teatro seja a única arte que realmente nos faz refletir sobre o que significa uma comunidade”, diz Bernat.

A peça, que foi criada em 2002 na Espanha e já rodou o mundo – passando por países como França, Inglaterra e Áustria – apresenta um questionamento sistemático sobre os mecanismos da democracia. “Acreditamos no direito de decidir nossas próprias normas?”. Esta é a primeira de uma série de perguntas a que o espectador terá que responder, refletindo sobre os mecanismos de organização da sociedade e sobre sua própria capacidade crítica e de gerar transformações.

“Temos a consciência da perversidade do sistema ao longo do espetáculo e de como a democracia validada pelo voto da maioria pode ser um processo manipulador e autoritário”, afirma a diretora e pesquisadora teatral Andrea Caruso Saturnino, uma das curadoras da mostra “Multitude”.

Segundo Bernat, seu objetivo era fazer do espectador uma espécie de parceiro da montagem. “Também queria mostrar que é possível imaginar um novo modo de o homem contemporâneo viver”, diz o encenador. Após voltar do intervalo da peça, o espectador é informado de que deverá votar com outro espectador sentado a seu lado. Passa então a testar suas habilidades como debatedor, com o objetivo de chegar a um consenso com seu colega.

Os temas são variados e mudam de acordo com a cidade na qual a peça é apresentada. A versão paulistana insere questões como racionamento de água, Copa do Mundo e eleições presidenciais. Há outras perguntas que fazem pensar sobre a educação do público na sala de teatro. A plateia tem de responder se deixa ou não espectadores que chegaram atrasados entrarem na sala. Também precisa resolver se proíbe o uso de telefone celular durante a sessão.

Algumas questões propostas ao público alimentam debates entre os espectadores, como acontece quando se faz a seguinte pergunta: “É melhor a opinião de uma minoria iluminada do que a opinião da maioria?”. Outras são bem mais fáceis. É o caso, por exemplo, de: “Você gostaria que nevasse dentro do teatro?”, pergunta que mostra que “Pendente de Voto” também abre espaço para a poesia.

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