“Não há nada que se possa roubar dele como escritor”

iG Minas Gerais | Liesl Schillinger |

O norueguês Karl Ove Knausgaard é amado por escritores
CHESTER HIGGINS JR.
O norueguês Karl Ove Knausgaard é amado por escritores

Nova York, EUA. Logo depois que o primeiro volume surgiu na Noruega, em 2009, “My Struggle”, de Karl Ove Knausgaard, tornou-se tão popular que alguns escritórios de Oslo instituíram “dias sem Knausgaard” – nos quais “não se pode conversar sobre os livros dele”, lembrou Geoff Mulligan, editor britânico do autor norueguês.

O romancista Jeffrey Eugenides contou ter explorado o encanto de Knausgaard em trocas de e-mails com seus amigos escritores, como Katie Kitamura (“Gone to the Forest”), Hari Kunzru (“My Revolutions”), Zadie Smith (“White Teeth”) e o poeta e romancista Nick Laird (“To a Fault”). Kitamura e Kunzru (que são casados) foram contatados na Cidade do México, onde ela fazia a divulgação de um livro e ele estava “Knausgaardando por aí”, explicou ela – cuidando do bebê deles enquanto ela dava palestras.

“Escritores o amam e o admiram muito”, afirmou ela, “mas não há nada que você possa aprender dele como escritor, pois o que torna sua escrita maravilhosa é tão intangível, tão ilusório. Não há nada que se possa roubar”.

O casal e seus amigos, disse Kunzru, ficaram impressionados com o descaso de Knausgaard pelas convenções contemporâneas do romance. “Ele faz tudo que não se deve fazer”, explicou Kunzru. “Ele se arriscou a ser tedioso em cada curva. Ele teve a coragem de dizer: ‘Minha vida comum como pai será suficiente para captar a atenção do leitor’”.

Kitamura acrescentou que “sempre que temos um pequeno drama familiar, pensamos: ‘Karl Ove faria 200 páginas com isso’”.

Críticas negativas. Previsivelmente, o coro de aclamação literária não é unânime. O escritor e crítico William Deresiewicz recentemente atacou “My Struggle” na revista “The Nation”, classificando a prosa como “um registro plano de detalhes superficiais, desanimado pelo toque da arte literária”. O escritor britânico John Crace zombou do estilo de Knausgaard num resumo paródico do Livro 2 no “The Guardian”. E na análise do terceiro livro, num artigo de “London Review of Books” intitulado “Each Cornflake”, o romancista Ben Lerner (“Leaving the Atocha Station”) soou interessado, mas ambivalente.

Em janeiro, Lethem escreveu um pequeno hino a Knausgaard com o título de “My Hero”, no “The Guardian”, mas afirmou sentir simpatia pelos detratores. “Não é fácil abrir espaço para a ideia de que todos estão falando sobre um escritor”, disse ele. “Tenho certeza de que muitas pessoas podem estar dizendo: ‘Ele é bom, qual é a grande comoção?’”. “Mas é preciso ter isso em mente”, continuou Lethem. “Ao procurar James Joyce na Amazon, você encontrará muitas críticas de duas estrelas e pessoas falando mal”.

Sendo assim, será que uma legião de escritores tentará imitar Knausgaard e escrever suas próprias histórias em vários volumes sobre os infinitos detalhes de suas jornadas pessoais? Kunzru não está sozinho ao manter a esperança.

“Não devo escrever a narrativa de minha vida em 3.000 páginas”, garantiu ele, mas as marcas da empreitada de Knausgaard – a “cuidadosa atenção que ele aplica em suas próprias reações”, seu “distanciamento da artificialidade” – podem ter um efeito cascata. O Knausgaard expansivo e sincero, sugeriu ele, “oferece um caminho aos romancistas: essa atenção especial à vida como ela realmente é vivida”.

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