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Escritor norueguês Karl Ove Knausgaard tem deixado o mundo literário em estado de servidão com seu romance biográfico “My Struggle”

iG Minas Gerais | Liesl Schillinger |

Um homem comum. Karl Ove Knausgaard escreve sobre a vida cotidiana, ao mesmo tempo em que faz meditações sinceras sobre arte, morte, música e ambição
Chester Higgins Jr/The New York Times
Um homem comum. Karl Ove Knausgaard escreve sobre a vida cotidiana, ao mesmo tempo em que faz meditações sinceras sobre arte, morte, música e ambição

Nova York, EUA. Karl Ove Knausgaard, escritor norueguês bonito, esbelto e pensativo (e pai de quatro crianças pequenas), vem deixando o mundo literário em estado de servidão desde que seu romance autobiográfico, em seis volumes e 3.600 páginas, “My Struggle” (“Minha Luta”), começou a aparecer em inglês, em 2012. Em tom direto e descuidado, os livros combinam um microfoco nos detalhes da vida cotidiana (creche, mantimentos, conversas com amigos) com meditações sinceras sobre arte, morte, música e ambição. O romancista Jeffrey Eugenides, chamando esses dois elementos de “autoficção” e “ruminação”, declarou que misturá-los como fez Knausgaard é algo que “ninguém jamais fez”.

Muitos de seus colegas reagem com espanto semelhante. “Eu os leio compulsivamente; não consigo parar”, garantiu Jonathan Lethem. “Às vezes surge um escritor que simplesmente faz você esperar pelo próximo livro”.

“Boyhood”, o próximo capítulo na saga de Knausgaard sobre sua vida como filho, marido, pai e escritor açoitado pela vergonha, foi lançado em maio nos Estados Unidos pela Archipelago Books, traduzido por Don Barlett (que assumiu toda a série e tem 2.201 páginas de norueguês para terminar). Se você é escritor, editor ou crítico, provavelmente ficou na fila por “Boyhood”. Se você é um leitor comum, pode não ter ouvido falar de Knausgaard; ou se ouviu, pode ter adiado a leitura dos livros, assustado com o calhamaço proustiano e incerto sobre o que esse título ameaçador pode lhe apresentar. (“My Struggle”, ou “Min Kamp” em norueguês, significa “Mein Kampf” em alemão – o título do notório manifesto de Adolf Hitler.)

Eugenides, autor de “Middlesex” e “As Virgens Suicidas”, laureado com um Prêmio Pulitzer, disse entender por que alguns leitores abordam “My Struggle” com cautela. Com ele também foi assim. “Pensei que seria algum tipo de austero romance escandinavo”, afirmou ele. “Mas tive a impressão errada. A maioria das pessoas está tão surpresa quanto eu, e cativada”.

Em 6 de junho, Eugenides irá moderar uma conversa com Knausgaard na Biblioteca Pública de Nova York. “Ainda não o conheci”, afirmou Eugenides. “Ao lê-lo, porém, você se sente como se estivesse absorvendo o retrato completo de toda uma vida”.

E como se parece essa vida? “My Struggle” revela um homem bem-intencionado e inseguro com quarenta e poucos anos, tentando compreender as feridas emocionais de sua infância, construir uma vida pessoal significativa e satisfazer suas ambições criativas. O romance contém todos os aspectos dessa jornada, incluindo longas digressões descrevendo idas ao posto de gasolina, um salão de cabeleireiro ou uma tediosa festa infantil.

Lorin Stein, editora de “The Paris Review”, defende tais digressões. “Ele tem interesse em imaginar seu caminho até a mente da criança que ele foi ou o homem que foi”, argumentou Stein, “mesmo sendo o homem que ele foi apenas um dia antes”.

Um tema se destaca em cada volume. O Livro 1, “A Death in the Family”, reúne as consequências da morte do pai alcoólatra e distante de Knausgaard: um homem frio que abandona a família quando Karl Ove era adolescente. O Livro 2, “A Man in Love”, aborda o casamento de Knausgaard com sua segunda esposa, Linda; sua paternidade mão na massa (ele é o principal cuidador); e sua determinação em escrever. No Livro 3, “Boyhood”, ele retorna à infância e a recapitula de forma bastante direta, preenchendo os pontos de interrogação que pontuam o Livro 1. Quanto ao foco dos Livros 4, 5 e 6 – teremos de esperar até eles serem lançados em inglês, ao longo dos próximos dois anos.

Por que “My Struggle” deixou o mundo literário tão aceso? Os árbitros mais criteriosos são atipicamente exuberantes em suas explicações. Stein declarou que a invenção de Knausgaard, de um “narrador que é uma pessoa real e está a cargo da história, solucionou um grande problema para o romance contemporâneo”.

Lethem (autor de “Motherless Brooklyn” e “The Fortress of Solitude”) classificou o livro como “um brilhante retrato do presente”, acrescentando: “Você está na presença de uma voz que é autoritariamente ciente e afirma sua total capacidade de dizer o que está em sua mente. E isso é fascinante”.

Os noruegueses – mesmo os que não escrevem – obviamente concordam. Meio milhão de cópias foram vendidas no país, que tem uma população de apenas 5 milhões.

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