Barbosa, o aposentado

iG Minas Gerais |

O país foi surpreendido na semana passada com a decisão de Joaquim Barbosa de pendurar a toga. O furo foi do presidente do Senado, Renan Calheiros. Que ironia! O senador, não desautorizado, deu com a língua nos dentes para a imprensa logo depois de ter sido comunicado pelo ministro pessoalmente. Apesar das especulações que surgiram – a doença na coluna vertebral sendo a mais citada –, o presidente do Supremo só fez desconversar sobre os motivos da aposentadoria. Disse que a expectativa é com a Copa do Mundo e que o futuro está aberto. Tentou comprar ingresso para assistir aos jogos do Brasil, mas não conseguiu. Vai ver apenas Portugal e Gana, no Mané Garrincha, cuja entrada comprou. A seleção brasileira, vai acompanhar de casa, pela TV. Barbosa tem preferido não sair às ruas há uns dois anos. Quem assegura é o chefe de gabinete, Sílvio Albuquerque Silva, inconfidente como Renan. O assessor contou que o ministro era achincalhado por torcedores do PT em ambientes públicos e chegou a ser ameaçado de morte. Também teria recebido telefonemas em casa com o mesmo teor. O motivo foi o tratamento dado aos réus do mensalão. Surpreende a reação? Não, embora absurda. Há exatamente três meses, esta coluna trouxe algumas observações sobre o comportamento de Barbosa, tantas vezes exacerbado. Por ter criticado publicamente a decisão de colegas, lamentado o resultado de julgamentos pelo pleno e destratado magistrados, advogados e jornalistas, argumentou-se que ele não demonstrava adequação ao posto que ocupa – e onde ficará até o fim do mês. O colunista acabou sendo criticado pelos leitores, que defenderam a atuação do ministro justiceiro. Barbosa é assim, desperta paixões e os “sentimentos mais primitivos”. Quem polemiza raramente recebe tratamento neutro: é ame-o ou odeie-o. Fosse o sujeito mais cordato e sereno da face da Justiça, ele já teria feito história por ser o primeiro negro a presidir a Suprema Corte do Brasil, um país que preserva o racismo mais rasteiro e subliminar, talvez por isso, o mais resistente. Menino pobre de Paracatu, de família numerosa, venceu na vida por mérito e esforço próprios. Mas o legado de sua passagem de 11 anos pelo STF vai além da mera presença. Uma demonstração: quando seria possível imaginar que uma máscara representando um integrante do Supremo fosse a mais procurada do Carnaval? O povo descobriu Barbosa e, por tabela, em alguma medida, tomou conhecimento das instituições e do funcionamento da Justiça brasileira. No período em que o Supremo foi “mais fecundo”, em suas próprias palavras, foi ele o protagonista, despertando amores e ódios. O ministro ainda teria o dobro do tempo percorrido na Corte para se aposentar compulsoriamente. A saúde, as ameaças, o cansaço e a exposição precipitaram a saída. Mas idade e capital Barbosa tem de sobra para voltar aos holofotes. Desde já, bem-vindo à política, doutor. A esperança deste colunista é que o senhor utilize seu patrimônio para militar em favor de uma causa enorme da qual já é um símbolo: a redução da desigualdade entre os brasileiros.

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