“Estou ficando velhinho”

Sebastião Salgado diz que, aos 70 anos, não tem condições de fazer grandes viagens e investe em projetos mais simples

iG Minas Gerais | Lucas Simões |

Guia. Sebastião Salgado durante visita guiada que fez com a imprensa, ontem, na Grande Galeria do Palácio das Artes, após a coletiva
PEDRO GONTIJO / O TEMPO
Guia. Sebastião Salgado durante visita guiada que fez com a imprensa, ontem, na Grande Galeria do Palácio das Artes, após a coletiva

Aos 70 anos, Sebastião Salgado admite que “Gênesis” é provavelmente seu último grande trabalho em viagens para fotografar. “Estou ficando velhinho”, ele brinca ao coçar a cabeça que abriga o inseparável “boné de fotógrafo”, como ele mesmo chama seu acessório. Em conversa com o Magazine, Salgado falou sobre o que aprendeu em quase 40 anos de carreira, contou sobre seu carinho com a fundação do Instituto Terra e um trabalho recente com a Fundação Nacional do Índio (Funai) para fotografar mais de cem aldeias indígenas isoladas na Amazônia.  

Depois de ter tido vontade de parar de fotografar, você atingiu o resultado esperado em “Gênesis”?

Acredito que sim. Minha vontade em parar foi pela carga emocional negativa. O que eu queria era registrar os lugares mais inóspitos do planeta para mostrar que há como preservar lugares onde pequenas comunidades e fauna e flora sobrevivem juntos. Acredito piamente que o planeta Terra vai sobreviver por muito tempo. Ele é capaz de se recuperar em 40 ou 50 anos e produzir formações inimagináveis. Mas nós, humanos dos grandes centros, vamos ser extintos se não mudarmos a forma de agir.

O Instituto Terra foi o passo para a criação de “Gênesis”. Qual a sua relação hoje com a fazenda que você viveu na infância?

Hoje temos mais de 130 aves vivendo no instituto, até onça pintada apareceu por lá. Aquilo é meu começo e minha evolução, o mesmo modo como vejo o planeta que fotografei neste último ensaio: ali está o início, a coisa intocada que pode continuar a evoluir dessa forma. A verdade é que me traz uma paz enorme sair do Rio de Janeiro, onde moro, para visitar o frescor da minha terra em Minas Gerais.

Durante os oito anos para compor “Gênesis”, você sentiu medo ou pensou em desistir em algum momento?

Fiz uma viagem na Etiópia em que tive que andar 850 quilômetros a pé com o apoio de 15 viajantes e 18 jumentinhos para carregar nossas mochilas, tudo isso durante 55 dias. Foi dolorido e duro, mas encontrei comunidades cristãs que vivem fabricando tecido e fazendo instrumentos de metal, como a gente fazia há 3.000 anos atrás. Eles não sabem nada da nossa civilização, isso é fantástico. Então não tem como pensar em desistir ao vivenciar esse tipo de coisa.

Já que você não deve se dedicar a outro grande trabalho futuramente, quais são suas próximas ambições com a fotografia e o que mais aprende nesses 40 anos de carreira?

Eu realmente não tenho condições de outra grande viagem dessa. Me alimento bem com cereais e proteínas, levo quatro câmeras comigo, sou organizado e prevenido, mas não dá, tenho 70 anos agora. Acho que aprendi a ver o mundo de forma mais simples e humana. Estou participando de um projeto em andamento com a Funai. Vamos registrar em fotos todas as tribos que não têm contato com humanos na Amazônia, são cerca de cem. É um trabalho complexo, mas que futuramente vai virar uma exposição, um livro, algo maior. É uma coisa que estou extremamente motivado a fazer e não vai exigir longas viagens. É mais concentrado na Amazônia, o que me ajuda um pouco.

Qual é o maior aprendizado que você leva de “Gênesis”?

Esses oitos anos de viagem foram quase 10% da minha vida até agora, mas valeu cada segundo. Fiz uma viagem para dentro de mim mesmo, na verdade. E precisei rodar tanto pelo mundo para entender uma coisa muito simples: se o brasileiro quiser saber a sua verdadeira história, tem que se concentrar nos povos indígenas. Ali está a nossa verdade, nos 13% de terras que eles ocupam no Brasil hoje.

Saiba mais

A exposição "Gênesis", com 245 fotos de Sebastião Salgado, fica aberta a partir de amanhã até 24 de agosto, no Palácio das Artes (avenida Afonso Pena, 1.537, centro). As fotos estão divididas na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard e no espaço multiuso Mari’Stella Tristão. Elas podem ser visitadas gratuitamente de terça à sábado, entre 9h e 21h, e aos domingos, das 16h às 21h.

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