Um mundo a ser descoberto

Sebastião Salgado, o maior fotógrafo da atualidade, vem a Belo Horizonte para apresentar a exposição “Gênesis”

iG Minas Gerais | Lucas Simões |

Registro.  Foto de uma baleia-franca-austral entre o golfo San Jose e o golfo Nuevo, na península Valdés, na Argentina, em 2004.
© Sebastião SALGADO / Amazonas
Registro. Foto de uma baleia-franca-austral entre o golfo San Jose e o golfo Nuevo, na península Valdés, na Argentina, em 2004.

Em vez de captar olhares e costelas raquíticas de crianças no Sudão ou o estrago impagável de madeireiras na Amazônia, as lentes do fotógrafo Sebastião Salgado resolveram inverter a lógica que permeou os quase 40 anos de carreira do profissional. Em sua mais recente e provável última exposição, “Gênesis”, que chega nesta quarta à Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard e também ao Espaço Mari’Stella Tristão, do Palácio das Artes, o fotógrafo apresenta uma coleção de 245 fotografias feitas de lugares, comunidades e situações da fauna e da flora pouco ou nunca antes tocadas pelo homem.  

A mudança de rota para o trabalho de Sebastião Salgado vem do acúmulo do contato direto com as misérias que viu por mais de 130 países por onde passou, retratadas em todos os seus 11 grandes trabalhos, como o emblemático “Serra Pelada” (1999) e “Berço Para a Desigualdade” (2005). “Eu vi tantas situações terríveis, barbáries inexplicáveis. Fisicamente e emocionalmente, eu pensei em parar de fotografar depois que terminei o ensaio ‘Êxodos’ (2000), que me desgastou muito. Foi aí que resolvi voltar às origens, ao meu início, para perceber o sentido da vida”, disse ele, nessa segunda, em entrevista coletiva.

A analogia que o fotógrafo faz entre “Gênesis”, o início da vida na Bíblia, e a sua própria origem, mostram a afinidade natural que Sebastião Salgado, 70, adquiriu com o que ele chama, em fala mansa e íntima, de planeta Terra. Após realizar o ensaio “Êxodos”, feito durante quatro anos em 40 países, ele voltou à fazenda Vulcão, em Aimorés, na região do Vale do Rio Doce, onde cresceu e aprendeu a acordar com canto de passarinho e dormir olhando a lua cheia.

Lá, ele encontrou a terra da infância com os mesmos 12 quilômetros de extensão, mas, no lugar, 50% da Mata Atlântica só conservava 0,5%. “Eu e a Lélia (mulher dele) descobrimos que precisávamos plantar 2 milhões de árvores lá para recuperar o original. Fizemos isso e foi assim que nasceu o Projeto Terra, que deu novo sentido a minha vida. Lembrei que meu pai me levava no pico mais alto da fazenda só para a gente ver o começo da chuva ou o sol começar a chegar. Foi a partir dessa lembrança que a Lélia sugeriu o ‘Gênesis’, um ensaio sobre lugares escondidos no mundo que preservam aquilo que realmente somos”, disse.

Sebastião Salgado enveredou, a partir de 2002, em uma extensa pesquisa com apoio do Patrimônio Mundial da Unesco, em Paris, para a escolha dos cartões-postais desconhecidos que pretendia clicar. Em cerca de oito anos, o fotógrafo fez 30 viagens de carro, barco, aviões monomotores, canoas e até jumentos para atingir pontos mais extremos do planeta, que, na exposição, foram divididos em cinco blocos: Planeta Azul, Santuários, África, Terras do Norte, Amazônia & Pantanal.

Na Amazônia, Sebastião Salgado encontrou a tribo indígena mais reclusa da região, os Zo’é, que vivem em um grupo de 250 índios há 300 km do rio Amazonas. Auxiliado pela tradutora Ana Sueli, da Universidade Federal de Brasília (UNB), ele teve contato direto com um povoado que só manteve relações fora de suas terras com jesuítas, na década de 1990. “As pessoas acreditavam que eles não existissem porque carregam cones pendurados no queixo, parecia uma lenda jesuíta. Mas eles estão lá e a aproximação foi ótima. Foram muito carinhosos comigo”, contou.

Depois, em Ruanda, na África, quando ele se viu diante de raro gorila-das-montanhas, do grupo Amahoro, no monte Bisoke, ele quase não registra a cena. “Me encantei com a reação que aquela gorila estava tendo, vendo o seu reflexo na lente da câmera. Eu sabia que para me aproximar tinha que me curvar e oferecer minha nuca, que é justamente o local que ela agride a presa. Fiz sem medo e tive um dos contatos mais bonitos da vida”, disse.

Parte do dinheiro para fazer as viagens do projeto “Gênesis” veio de publicações de fotos em jornais como “The Guardian” e “New York Times”, mas em 2008 o fotógrafo começou a receber patrocínio da mineradora Vale. Questionado se há incômodo em ser patrocinado por uma empresa que integra o Consórcio Norte Elétrica para a construção de uma das maiores usinas do país justamente na região do Xingu, onde vivem índios fotografados por ele, Salgado não se intimida. “Fotografei esses índios e defendo todos. O patrocínio é para mostrar esse início da vida, justamente esse início tão fundamental que eles fazem parte e as pessoas não veriam de outra forma”, afirmou Salgado.

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