A mulher de todos os cinemas

Atriz e diretora, Helena Ignez é musa do espírito radical que marcou a mostra deste ano em Ouro Preto

iG Minas Gerais | DANIEL OLIVEIRA |

Filme. Helena Ignez mostrou seu mais recente filme no CineOP
Leo Lara / Universo Produções
Filme. Helena Ignez mostrou seu mais recente filme no CineOP

Ouro Preto. Os três homenageados desta nona edição da CineOP são homens. Mas se existe uma convidada de honra – uma musa, com todo o respeito que o termo merece – no festival deste ano, ela é a atriz e diretora Helena Ignez. No sábado, ela introduziu a sessão de “Copacabana Mon Amour”, dirigido por seu marido, o saudoso Rogério Sganzerla, no qual vive a revolucionária e feminista Sônia Silk. E no domingo, Ignez apresentou o média “O Poder dos Afetos”, seu sexto trabalho como diretora. 

Numa edição em que a radicalidade do cinema dos anos 1970 foi a protagonista, não existe um símbolo melhor para o espírito que tomou conta de Ouro Preto nos últimos dias do que o rosto e a lucidez da baiana de Salvador. “O corpo de Sônia Silk continua vivo em mim. Aquela música que ela tem dentro dela, um movimento dentro do movimento”, explica Helena.

Mas apesar da parceria com Sganzerla, na vida e no cinema, ter definido sua carreira, Ignez não se considera uma atriz marginal. “Não fiz filmes marginais. Fiz filmes principais”, pontifica. A falta de modéstia é justificada. Desde “O Pátio” e “A Grande Feira”, dirigidos pelo então marido Glauber Rocha, passando por “O Padre e a Moça”, “O Bandido da Luz Vermelha” e “A Mulher de Todos”, Helena Ignez é apontada por muitos críticos como a inventora de uma nova forma de atuar no cinema brasileiro. Um grito de liberdade que, pela primeira vez, levou a verdadeira mulher independente e feminista dos anos 1970 para a tela.

Essa voz própria continua mais viva do que nunca em “O Poder dos Afetos”, uma espécie de “Decameron” tântrico new age em que vários personagens cruzam seus relacionamentos e sexualidades em um cenário bucólico. Se o média traz a estrutura subversiva e libertária dos trabalhos de Sganzerla, ele dialoga com questões bastante contemporâneas, como a Marcha das Vadias e os direitos gays.

“Filmo uma mulher seminua falando do direito de estar seminua porque hoje existe uma hipocrisia ainda maior sobre isso. O corpo só é válido quando é vendido na ‘Playboy’. A mulher continua sofrendo essa humilhação”, diz. O elenco traz nomes como Simone Spoladore e Ney Matogrosso. O cantor – que já havia atuado em “Luz nas Trevas - A Volta do Bandido da Luz Vermelha”, dirigido por Ignez – encena um belíssimo beijo gay, que a cineasta baseou em um monumento a um gay morto pelos nazistas, em Berlim.

Para ela, o filme é sobre a possibilidade de sermos felizes. “Sendo felizes e tendo prazer, nós estamos um pouco mais perto da verdade”, propõe. Toda essa força e alegria de viver podem surpreender em uma mulher que, há 40 anos, gritava repetida e insistentemente “Tenho pavor da velhice!” para Lília Lemmertz na cena de “Copacabana Mon Amour”, que talvez seja o refrão desta edição do CineOP.

“É uma frase do Rogério. Eu nunca tive medo”, afirma, categórica, do alto de seus belíssimos 72 anos. O destemor se reflete em seu ritmo de trabalho incansável. Ignez já tem um roteiro pronto para transformar “O Poder dos Afetos” em um longa e continua atuando. “O (Luiz)Rosemberg (Filho)me convidou nessa segunda à noite para um papel extraordinário, sobre a vida da escritora Maura Lopes Cançado, autora de ‘O Hospício de Deus’, que enlouqueceu aos 68 anos”, anuncia.

É por meio da energia de seu trabalho que a atriz e diretora mantém vivo o espírito libertário e revolucionário da sua parceria vital e artística com Sganzerla, que ela acredita estar perdida no cinema brasileiro atual. “Pelas dificuldades de exibição, ele cedeu muito. O cinema brasileiro perdeu a identidade. Mesmo o cinema marginal, de que eu não gosto, tinha uma identidade”, suspira. Ela vê alguma forma de mudar isso? “Talvez não”, ela confessa, com a consciência de quem já viu e gritou o poder do cinema nacional do fundo de seus pulmões.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave