Ribeirão de livros

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Uma grande praça apinhada de gente e ocupada por cerca de uma centena de barracas sob a luz do sol. Nelas, nada de cerveja gelada ou saborosos petiscos ou doces. Apenas prateleiras e bancas de livros, livros, livros. Dos mais variados gêneros e para os mais diversos tipos de públicos, de crianças a idosos. A céu aberto eu nunca havia presenciado tamanha avidez em torno dos livros como a que acompanhei na 14ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto. As barracas lotadas de gente manuseando os títulos disponíveis e fazendo suas escolhas. Preços diversificados, de promoções acessíveis como três exemplares por R$ 10 a até os mesmos praticados nas livrarias convencionais. Pais saem com sacolas ao lado dos filhos, assim como leitores em geral. Esse é o principal traço que distingue no país a fama positiva do evento de Ribeirão Preto como uma feira de livros popular. De frente para a praça fica o imponente Teatro Pedro II que recebe a programação de encontros com os escritores e também shows que completam a agenda. Mas não é só isso, a feira ocupa na verdade 14 espaços da cidade de mais de 600 mil habitantes. Conheci, por exemplo, o parque municipal Maurilio Biagi, que concentra a programação infantil e tem também estandes de venda de livros. Detalhe importante: toda a programação é gratuita. Nessa primeira vez em Ribeirão Preto fui também, em outro ponto da cidade, ao Teatro Municipal, onde acompanhei à divertida participação do cronista Xico Sá no programa do evento intitulado Salão de Ideias. Dentre muitos assuntos ele contou de sua íntima relação com Ribeirão Preto pela grande amizade que teve com o ex-jogador da seleção “doutor” Sócrates, morto em 2011, com o qual dividiu um programa esportivo de televisão na TV Cultura de São Paulo, o “Cartão Verde”. E nesse antro de amigos se inclui o boêmio Fernando Kaxassa, que percebi mais cedo ser uma figura folclórica da vida de Ribeirão Preto. Eu cheguei à cidade na hora do almoço e após deixar o hotel fui a um restaurante. Enquanto aguardava a comida folheei uma revista que estava sobre o balcão, chamada “O III Berro”. Lia uma parte dela quando alguém que passava atrás disse: “este texto é meu”. Li em voz o nome do autor? “Fernando Kaxassa?”, perguntei. “Kaxxasssaa”, ele frisou. “Muito prazer”, respondi. Assim fomos apresentados. Já à noite, ele chegou junto com Xico Sá ao Teatro Municipal. Depois, com Kaxassa na plateia, Xico contou no palco que eles disputaram mais cedo em um bar qual deles era o mais feio. Como não chegaram a um veredicto, chamaram Fidel, filho do “magrão” Sócrates, para decidir, mas o juiz pediu tempo pra pensar, e disse que daria a resposta outro dia. Não fiquei sabendo o resultado da contenda. O carinho por Sócrates, aliás, é fácil de ser reconhecido pela cidade, pelo que contam da simpatia do ex-craque e médico que gostava de cultivar amizades. Tinha seu bar preferido, o Empório Brasília, com uma mesa cativa para o “magrão”, onde depois, acima dela, foi afixada uma placa em homenagem a esse freguês especial. Além do Empório, outro ponto tradicional de Ribeirão é o restaurante Paddock, em que a cozinha de primeira é enriquecida no almoço com uma requintada música ao piano, num repertório com o melhor da música brasileira de todos os tempos e também canções norte-americanas. E o Pinguim? É o que me perguntaram desde que voltei, todos que conhecem essa principal referência etílico-turística de Ribeirão Preto. Fui degustar o chope cremoso e digo que vale a fama que tem, sobre a qual não é preciso mais propaganda. Apenas pedir mais um. Após pouco mais de 24 horas de permanência deixei Ribeirão Preto com a impressão de que a sua Feira Nacional do Livro, apesar de ter apenas 14 anos, é algo entranhado na cidade. Uma necessidade básica daquela população que disputava espaço nas barracas para levar livros para casa. 

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