Uma rede de hermanos

Mostra reúne representantes internacionais para discutir os desafios da preservação nos países em desenvolvimento

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Reunião. Da esq. para dir. Maria Jose Santacreu, Alejandra Trelles, Norma Rivera, Djalma Lourenco, Eileen Sanabria Herrera, Cristalino Castigo Uamusse e Paula Felix-Dider
@ 2014 Leo Lara
Reunião. Da esq. para dir. Maria Jose Santacreu, Alejandra Trelles, Norma Rivera, Djalma Lourenco, Eileen Sanabria Herrera, Cristalino Castigo Uamusse e Paula Felix-Dider

O principal sintoma da síndrome de vira-lata do brasileiro é que, não importa se é uma tosse, um resfriado ou uma gripe, qualquer problema mínimo é sempre visto como uma tuberculose fatal. Em uma área tão pouco valorizada e com tão pouca visibilidade como a preservação audiovisual, então, as comparações com países como França e Alemanha fazem parecer que a causa está quase perdida. No entanto, basta um olhar de fora com um pouco mais de perspectiva para ver que as coisas não estão tão ruins assim. Ouro Preto.

“Eu ouvi a fala do secretário do audiovisual [Mário Borgneth] na sexta e fiquei impressionada como vocês têm alguém aqui no governo que não só se interessa, mas entende do assunto. Isso não existe no Uruguai”, afirma Maria José Santacreu. Coordenadora da Cinemateca Uruguaia, ela veio à 9ª CineOP para participar no último sábado do debate “Desafios Continentais de Educação e Preservação Audiovisual em Rede”, ao lado de representantes do Peru, Cuba e Moçambique.

O objetivo era trocar experiências e estabelecer conexões para que o trabalho em rede possibilite o intercâmbio entre países mais avançados no assunto, como – pasmem – o Brasil, e outros que ainda engatinham na área.

Santacreu conta que, há três anos, enviou ao governo uruguaio uma lista de “filmes em perigo” no acervo da Cinemateca, mas até hoje não teve resposta. O país, que produz hoje entre 15 e 20 longas por ano (o Brasil lançou 127 em 2013), tem uma lei de incentivo à produção que está atualmente sendo alterada para apoiar também a distribuição e exibição – gargalos da indústria, assim como por aqui.

Não existe, contudo, nenhum tipo de recurso ou política pública para a preservação. “Se o filme está na Cinemateca, é porque nós fomos atrás, já que não há nem uma obrigação de depósito das obras produzidas”, explica a coordenadora. Os únicos recursos da instituição, que é um órgão privado, vêm da venda de ingressos em suas salas. “Temos acessos aos filmes, mas não recursos para preserva-los. Existe também um Acervo Público, mas não há consciência da importância da preservação. Ou se há, ela não se traduz em ação”, revela Santacreu.

Incêndios. A situação do Uruguai ainda é melhor que a de Moçambique. Independente há menos de 40 anos, o país ainda briga por uma produção local consistente. O Instituto Nacional de Audiovisual e Cinema (Inac), segundo seu diretor Djalma Lourenço, tem hoje aproximadamente 40 produtoras registradas. “Mas apenas quatro ou cinco realmente funcionam. Existe uma lei de mecenato, só que ela ainda não se faz sentir”, avalia Lourenço.

Além de não receberem incentivos, os realizadores ainda têm que pagar ao Inac uma taxa de serviços administrativos, entre US$ 100 e 200, para filmar no país. O resultado é uma média de um ou dois longas por ano, com recursos de patrocínio ou apoio de países como Portugal e França. Preservação, então, não é exatamente uma prioridade.

“Existe um nível muito incipiente de restauração e preservação”, admite o diretor. Apesar de um incêndio em 1991 ter causado uma perda significativa, o acervo do Inac ainda conta com 5.000 títulos – grande parte de produções estrangeiras, de países como Angola e Vietnã, ou filmes locais pré-coloniais. Mas o prédio em que ele se encontra está atualmente em reforma e não é próprio para a salvaguarda do material. “De 340 títulos em perigo, apenas 52 foram digitalizados em Portugal e na Alemanha”, revelou Lourenço, durante o debate no sábado.

Paixão. É para auxiliar em cenários como esse que se formam organizações como a Coordinadora Latinoamericana de Archivos de Imágenes em Movimento (Claim), que serve de comitê executivo da Federação Internacional de Arquivos Fílmicos (Fiaf), congregando 32 arquivos no subcontinente. Sua atual presidente é a peruana Norma Rivera. Nascida em um país que em 2013 produziu apenas quatro longas, ela encarna as duas qualidades fundamentais para se atuar na área: pragmatismo e paixão.

Segundo ela, é preciso entender que a restauração não é um fim em si, mas deve atender à indústria, que é quem permite o acesso das pessoas a esses materiais. E que o trabalho de preservação é essencialmente se antecipar ao futuro. “Isso significa que digitalização não é preservação. O digital é ótimo para o comércio, mas não se conhece sua vida longa. O fundamental hoje é salvar as matrizes em celuloide para que as obras sobrevivam e possam ser exploradas por muitos anos”, explica.

Para isso, o Claim tem oferecido cursos de capacitação, como a Escuela sobre Ruedas, com recurso do Ibermedia por toda a América Latina. O objetivo é formar profissionais apaixonados e que entendam os ossos do ofício. “Sempre parto do princípio de que o ânimo e a competência das pessoas que as dirigem podem construir ou destruir uma instituição”, reflete Rivera. Para ela, o restaurador precisa ter uma vocação artesã e anônima e entender que ideologias do século XX devem dar lugar a objetivos claros e práticos.

O jornalista viajou a convite do CineOP

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