Polícia afegã ‘caça’ jovens de etnias distintas que se casaram

União de Zakia, uma sunita tajik, e Mohammad Ali, um xiita hazara, foi feita escondida

iG Minas Gerais | Rod Nordland |

Mohammad Ali, 21, e Zakia, 18, fugiram para poderem ficar juntos
Diego Ibarra Sanchez / The New Y
Mohammad Ali, 21, e Zakia, 18, fugiram para poderem ficar juntos

Hindu Kush, Afeganistão. Mohammad Ali, 21, e Zakia, 18, são fugitivos, mas ao menos estão juntos, casados por um mulá depois de serem separados pelas suas famílias e pelo tabu de suas origens étnicas e seitas diferentes. A família dela ameaçou matar os dois, que agora correm o risco de serem presos, já que a polícia os está perseguindo por bigamia e “tentativa de adultério”.

Há algumas semanas, eles chegaram à casa de Haji e Zahra, em um vale alto com campos de trigo e batata. Montanhas altas ainda cobertas de neve escondem o vilarejo de apenas quatro casas, e, para chegar à estrada mais próxima, é necessário caminhar morro acima e passar por uma ponte instável de madeira – o esconderijo perfeito, com vista digna da lua de mel. Haji e Zahra são parentes distantes e antigos vizinhos de Mohammad Ali, e receberam o jovem casal apesar de terem oito filhos, e pouco que comer, além de pão, arroz e chá.

Quando Mohammad Ali e Zakia contaram como a família dela se opôs ao casamento porque são tajiks sunitas e ele é um hazara xiita, e sobre como os dois tentaram por anos persuadir os parentes dela a permitirem que ficassem juntos, Zahra e Haji concordaram prontamente em receber o casal. “Eu apoio o que eles fizeram; eles se amam. E com a graça de Deus eu decidi que iria ajudá-los”, afirmou Zahra.

Esse foi o oitavo lugar onde o casal dormiu desde que Zakia fugiu de um abrigo para mulheres, onde passou meses sob ordem judicial. Em certo momento, eles tentaram atravessar a fronteira do Irã, mas coiotes (pessoas que cobram para levar, ilegalmente, imigrantes até um país) queriam mais dinheiro do que eles possuíam, e Mohammad Ali temia que a caminhada fosse mais longa do que Zakia é capaz de aguentar.

No fim da semana, a realidade bateu à porta. O pai de Mohammad Ali, Anwar, e o irmão mais velho, Bismullah, 27, foram visitá-los, pois a notícia de que estavam lá já havia se espalhado (como muitos afegãos, nenhum dos dois têm sobrenome; no caso de Haji e Zahra, o sobrenome foi omitido para protegê-los). Uma mulher, outra parente distante, estava voltando de um funeral, passou para visitar Zahra e Haji, e viu o casal ali.

“Aquela estúpida”, afirmou Zahra. “Algumas pessoas não sabem guardar segredo”. Haji falou: “Os dois têm que partir esta noite”.

Não houve nem discussão, nem ressentimento. Zakia arrumou rapidamente as duas sacolas de plástico onde carregam as roupas, junto com uma pequena mochila. Zahra começou a chorar. “Ela o ama e queria poder ficar com ele”, afirmou. “Mas se o problema se transformar em uma disputa entre as famílias, elas podem se matar – e matar os dois também”.

Anwar achou que seria a última vez que veria o filho e a nora e queria falar com os dois. A primeira vez que soube do plano de Mohammad Ali de se casar com Zakia, Anwar espancou o filho com tanta força, que o jovem ficou com hematomas no rosto durante meses. Mas, desde então, ele e o pai se entenderam.

“Minha nora ficou atrás do meu filho e foi corajosa o bastante para dizer que o ama, e para nós é uma honra protegê-la”, afirmou Anwar. “Agora ela é parte da minha família”. Tanto Anwar, quanto Bismullah estavam com os olhos marejados .

Mohammad Ali e Zakia eram os únicos que não pareciam abatidos, sorrindo com facilidade um para o outro, mesmo tendo que fugir novamente. “Vale a pena, porque nos amamos”, afirmou.

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