Suor honorífico ou suor degradante, eis a questão

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Repeteco: feder, todos nós fedemos, mas alguns fedem mais do que os outros
Intervenção sobre imagem de elefanta bonitona
Repeteco: feder, todos nós fedemos, mas alguns fedem mais do que os outros

Admirador do método científico-literário de investigação, volta e meia ofereço contribuições que, desculpem a imodéstia, julgo excelentes. Por esse lado, me aproximo de Rex Stout, o mais sofisticado dos autores de ficção policial, bom matemático e adepto da preguiça como paradigma da excelência existencial. Parêntese. Como sempre detestou trabalhar por obrigação, Stout desenvolveu, ainda garoto, certa fórmula matemática para gerenciar finanças colegiais. Vendeu a ideia para 400 entidades de ensino dos Estados Unidos e foi viver de literatura na Europa, numa vila à beira-mar. Publicou 73 livros. Dizem que morreu rico e feliz, embora, pessoalmente, eu não creia que a morte traga felicidade, com grana ou sem ela. Ou qual é a vantagem de morrer rico, exceto pelo número de tubos e agulhas no corpo, sem falar das contas hospitalares. Ainda escreverei sobre esse gênio. INTRODUÇÃO Uns mais, outros menos, todos os mamíferos suam. Os cachorros, por exemplo, depois de correrias desenfreadas pelas ruas e quintais, botam a língua de fora – e suam. Com isso se livram do excesso de calor corporal. O mesmo fazemos nós. De que modo? Eis a questão, como postado no título. Ao contrário dos cachorros, não vivemos em correrias desenfreadas pelas ruas e quintais. Não mijamos em poste. Não latimos para crianças andando de bicicleta ou jogando bola. Raramente mordemos de verdade. Nossa ração, em termos nutritivos, é inferior à deles, custando em compensação o dobro, o triplo ou o quádruplo. Mas, como eles, mostramos os dentes por qualquer besteira e nos enfurecemos à toa. Enfim, quase nada existe de semelhante entre nós e os canídeos, exceto o suor, as tetas grandes (nas fêmeas) e a irritação por ninharia. Ah, e também o hábito de abanar o rabo para nossos superiores e atacar sem piedade nossos inferiores. SUOR E FEDOR Macacos fedem, leões fedem, elefantes fedem. Quer dizer, fedem de nosso ponto de vista. Fedem porque o suor se mistura ao pelame e ali, por cortesia de fungos invisíveis embora eficientes, formam crostas resistentes e fedorentas. De nosso ponto de vista, repito. Porque para macacas, leoas e elefantas, aquilo é o perfume mais rico entre todos, importado diretamente de Paris para a pele dos respectivos machos. Pulgas e outros insetos não suam. Na verdade, desconheço o que suor tem a ver com mamas, mas decretou a ciência que insetos não suam. OUTROSSIM Aves suam e fedem, embora não sejam mamíferos. Morcego não é ave, mas mamífero, embora voe. Não sei se sua ou se fede. A pesquisar, não esquecendo que baleias são mamíferos e não peixes, embora nadem. Não sei é se fedem enquanto vivas, já que mortas, como todos os ex-viventes, fedem naturalmente, e mais fedem na proporção da exposição in natura à intensidade do sol.

Peixes não suam, mas fedem. De fato, seria impossível suar e feder debaixo d’água. Mas se não suam debaixo ou fora d’água, peixes não fedem debaixo d’água, embora, na maioria dos casos, fedam do lado de fora, especialmente se expostos ao sol, conforme relatado acima. No entanto, peixes congelados não fedem. Imagino que seja porque, congelado, o fedor se torna mais pesado que o ar e, assim, não flutua. Queijos fedem, embora não sejam mamíferos e não suem, exceto lentamente, por efeito da cura. Alguns queijos fedem mais do que outros e, paradoxalmente, quanto mais caros mais fedem. Argumentam os apreciadores esnobes que aquilo não é fedor, mas aroma. Deixarei passar. Aliás, sempre deixo passar coisas desse tipo. O argumento é idêntico ao utilizado para macacas, leoas e elefantas. SOVACO Também chamado axila, o sovaco (ou suvaco e subaco, entre sertanejos) é nos humanos o supremo depósito de fedor. Por quê?, questiona a ciência. Meramente porque, responde a mesma ciência, é ali que, comprimido na junção de braço e tórax, atormentado e desesperado pelo medo do escuro, o suor dispara milhões de células nervosas à maneira de mísseis, em todas as direções, pedindo socorro. Não adianta. Os mísseis disparados transportam, em suas ogivas, nada além de fedor, o mais descarado, renitente e atordoante fedor. Psicólogos de vários países, reunidos em conclave, decidiram submeter axilas de diversas nacionalidades a prolongadas sessões de terapia de relaxamento. Não adiantou. TERAPIA Lógico que meu assunto era outro. Mas não posso ir direto ao ponto se tantas dúvidas pertinentes me afligem. E não apenas dúvidas, como também a certeza de que inúmeras indústrias farmacêuticas se tornaram biliardárias fabricando produtos contra fedor e transpiração fedorenta. Tais produtos, como sabemos, atuam de maneiras diversas com resultados igualmente diversos. Perfumes combatem corpo a corpo contra o fedor. Como nas guerras antigas. Mas só perfume não resolve. Foram então desenvolvidos produtos destinados a tapar os buraquinhos por onde se escafede o suor e, com ele, o fedor. Chamam-se desodorantes, mistura de perfume com entupidor de buraco. Como são fabricados? Não sei nem quero saber, minha preocupação é outra. Sei apenas que bilhões de mamíferos (macacos, leões, elefantes e baleias desconhecem seu uso) esguicham ou esfregam tais produtos nas axilas, nas virilhas, nos pés e até na junção da galáxia pulsante com o buraco negro e a nebulosa quádrupla. Adianta alguma coisa? Há controvérsias, que aumentam com o decorrer do dia – sem falar no acréscimo de suor. Mas tudo isso é vão e irritante, apenas nos afastando de nosso honorífico assunto, que continua na próxima semana.

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