Um Francis Bacon obscuro

Conjunto de obras praticamente desconhecidas do célebre artista virá para exposição no Brasil em julho

iG Minas Gerais |

Cara. Tríptico de Francis Bacon se tornou a obra de arte mais cara já leiloada, por US$ 332,2 milhões
PETER MACDIAMID / Divulgação
Cara. Tríptico de Francis Bacon se tornou a obra de arte mais cara já leiloada, por US$ 332,2 milhões

São Paulo. Dentro de uma jaula, o rosto de um homem surge gritando, sua boca cheia de dentes arreganhada num gesto de desespero. Era dessa forma opressora que Francis Bacon retratava o poder e a celebridade. O artista britânico, morto aos 82 anos, em 1992, também se sentia dentro de uma espécie de prisão em Londres, onde fez fama e fortuna com seus retratos carregados de angústia. Nos últimos anos de sua vida, Bacon foi atrás de paz e anonimato, passando longas temporadas na Itália e na Espanha, onde criou obras até hoje quase desconhecidas, os chamados desenhos italianos, que serão expostos em julho, em São Paulo.

Dos 500 trabalhos criados pelo artista entre 1977 e o ano de sua morte, 35 deles virão ao país para a exposição. É um amplo recorte do lado mais secreto da obra de Bacon, o artista mais caro do mundo – um tríptico do britânico foi arrematado no ano passado por R$ 332,2 milhões, recorde absoluto em leilões. Mas Bacon não teve a mesma sorte em vida. Em 1958, acumulando dívidas de cerca de R$ 5 milhões, o artista assinou um contrato com a poderosa galeria Marlborough, de Londres, que saldou o rombo em troca de exclusividade sobre suas obras.

De acordo com críticos e amigos próximos do artista, Bacon se sentia pressionado pela galeria e por isso criou esses 500 desenhos fora do Reino Unido em segredo. “Sua galeria o manipulou e o chantageou a vida inteira”, diz o jornalista italiano Cristiano Lovatelli Ravarino, último namorado de Bacon. É como se longe dos olhos da galeria, que não comenta sua relação com o artista, Bacon pudesse dar vazão a outros impulsos criativos. “Ele fugiu da opressão que sentia em Londres”, diz Serena Baccaglini, curadora da mostra.

Seus desenhos também atestam certos arrependimentos em relação às suas obras mais famosas e antigas. Insatisfeito com algumas telas, como a série inspirada no retrato do papa Inocêncio 10º criado por Diego Velázquez, Bacon refez algumas das composições no exílio, revendo seus erros. Nos desenhos que estarão em São Paulo, temas clássicos de seus trabalhos, como cenas de crucificação, retratos de seus amantes e autorretratos também reaparecem com a fúria nos traços que marcam suas pinturas mais famosas.

“Esses desenhos não são esboços, mas sim afirmações artísticas dele”, diz o crítico britânico Edward Lucie-Smith, um dos maiores especialistas na obra de Bacon. “Enquanto ele negava fazer desenhos e fugia para escapar do peso da fama, tentava criar com essa parte de sua obra uma espécie de identidade secreta”, acrescenta Lucie-Smith. Bacon se esforçou para manter o mito que arquitetou em torno de sua obra, como que nascida em surtos de criatividade, mas isso tinha pouco a ver com a realidade. Depois de sua morte, esboços para várias telas foram encontrados em seu ateliê, alguns com anotações detalhadas sobre até como deveriam ser as pinceladas.

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