O FIT e seu legado para BH

Cássio Pinheiro - Diretor teatral e Coordenador Geral da edição 2014 do Festival Internacional de Teatro Palco & Rua de Belo Horizonte – FIT-BH

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

“É hora dos grupos da cidade irem para fora, ter contato com outros formatos de festivais, com outras linguagens”
Alex de Jesus
“É hora dos grupos da cidade irem para fora, ter contato com outros formatos de festivais, com outras linguagens”

À frente do festival mais antigo de Belo Horizonte, Pinheiro teve que lidar com muitas críticas ao longo da edição comemorativa do FIT-BH, que completou 20 anos. Dentre elas, a falta de lastro deixado pelo evento na cidade. A isso, se somou o fato de ter menos de um ano para selecionar e produzir a edição, que a Fundação Municipal de Cultura qualificou como “o maior FIT da história”. Qual sua avaliação dessa edição do FIT, que comemorou 20 anos? A avaliação, até o momento, é positiva. E falo até o momento porque o primeiro cuidado que nós tivemos foi rever as 11 edições anteriores e avaliar o que não conseguiu se fazer, o que estava sendo proposto nessas edições, e tentar realizar nessa décima segunda. Em relação a isso, nós conseguimos avançar. Mantivemos o FIT enquanto um projeto de política pública e buscamos avançar, principalmente, em propostas de descentralizar, chegar mais próximo da população e o programa Intercena, que, desde a edição de 1996, já se falava dessa necessidade de internacionalização das produções locais. Nós pegamos isso como uma linha mestra desse FIT e o respeito a tudo que foi feito nos festivais anteriores. A presença de 25 locais na grade de programação é consequência de 11 edições do FIT, desde a valorização do trabalho dos grupos. Hoje, a cidade tem uma quantidade de grupos com excelência em seu trabalho e eu considero que isso é uma influência das edições do festival. Procuramos com muito zelo e carinho valorizar tudo o que foi feito de bacana, ver o que não se conseguiu fazer, ou por falta de verba ou por falta de condições, e tentar avançar nessa edição. Nesse aspecto, acho que foi muito positivo o trabalho dessa edição.

E os pontos negativos?

A dificuldade que nós tivemos, que gerou uma série de outras pequenas dificuldades, foi a Copa do Mundo. Ela dificultou uma série de questões de custo: passagens aéreas, hospedagens. E pelo fato de antecipar o festival para maio – que não foi só em função da Copa, mas tentando fugir do verão do hemisfério Norte, quando há vários festivais e o custo de contratação maior, criou uma dificuldade porque o tempo é curto. Nosso prazo ficou estrangulado, mas ainda acho que o melhor período para o FIT-BH seja maio, por não competir com outros festivais internacionais.

E como você responderia à crítica de Chico Pelúcio (um dos integrantes do Grupo Galpão) sobre oFIT ser “um festival de butique que não deixa nenhum lastro para a cidade”?

Eu discordo veementemente do Chico. Acho toda crítica válida e o teatro, por si só, é polêmico. Isso é extremamente positivo, mas eu discordo justamente porque temos hoje um movimento de coletivos e grupos de teatro da cidade que inevitavelmente são consequência do FIT. Esse é um dos legados que o evento deixa ao longo desses anos. A discussão do teatro contemporâneo em Belo Horizonte se fortalece a partir do FIT. Esse é um outro legado. Na parte de formação, muita coisa se fez, seja de formação de público ou dos artistas, em 12 edições do festival. Fiquei assistindo “Hamlet”, um espetáculo de três horas e meia de duração, e ninguém arredou pé. Isso, para mim, é consequência de uma formação do público que o FIT faz. O FIT vai além de uma mostra de espetáculos, mas não podemos desqualificar a mostra. Ela é extremamente significativa e foi esses anos todos. O FIT forma público, estabelece o debate, estimula a polêmica. Então, deixa um legado que essa cidade não seria a mesma se não tivesse da primeira até a décima segunda edição. Eu acho que a cidade, a classe artística e até mesmo a Fundação Municipal de Cultura (FMC) não compreendem a dimensão do que é esse festival.

Outra crítica de Pelúcio é a falta de diálogo da coordenação do FIT e da FMC com os artistas.

Fizemos os debates que foram possíveis dentro de um prazo curto, mas nós nos balizamos no que o Conselho Municipal de Cultura (Comuc) estabeleceu como diretrizes de política pública. Daqui para frente, queremos retomar os chamamentos, as conversas com os grupos, a classe artística para repensar o festival. Ele tem um grande problema, que não é dele, nem de seus coordenadores anteriores, mas da FMC: o FIT não conseguiu produzir uma memória do que foram os festivais ao longo dos anos. Nós estamos fazendo esse trabalho de buscar essa memória, não só com documentos, fotos, mas com as pessoas que passaram por ele. Um festival público precisa ter tudo isso publicizado. Tudo isso deve estar disponível para as pessoas. Essa foi uma de nossas dificuldades, nós tivemos que aprender o FIT.

Você não acha que essa mostra local com tantos espetáculos macula ou deturpa esse caráter internacional do festival?

Não acho, não. Porque temos que internacionalizar nossa produção. É muito sensível você falar o que é internacional em teatro. Seria tudo aquilo que consegue construir uma linguagem acessível a vários povos, a várias formas de pensamento. Eu visitei vários festivais, acompanhando a curadoria para essa edição, e percebi que a produção de BH tem condição de participar de qualquer festival no mundo. É preciso se instrumentalizar em alguns aspectos? Sim, é preciso. Na parte de relacionamento com esses festivais, principalmente. Temos um grande problema, a princípio, que seria a língua que falamos, mas eu vi os espetáculos alemães com tradução simultânea aqui e não vi nenhum tipo de impedimento. Há um momento em que nós precisamos não só trazer de fora, é hora dos grupos irem para fora, ter contato com outros formatos de festivais, com outras linguagens. Não só festivais, como residências artísticas, coproduções. O FIT não pode, como tem sido, ser apenas um evento que acontece de dois em dois anos. Ele precisa de continuidade. O Intercena é apenas um nome dessa busca da continuidade. Para isso, é preciso estimular a produção local. Essa foi uma decisão muito clara que nós tomamos na programação ao escolher tantos espetáculos locais, para não só valoriza-la, mas avançar no sentido da internacionalização.

Um dos pontos destacados por você e a FMC foi justamente a descentralização do festival, tentando estabelecer conexões nesses territórios regionais. Qual avaliação que você faz das ações nesses bairros?

Tem uma coisa que foi colocada pelo Comuc: não é somente levar produtos para os territórios, mas também valorizar o território e seus artistas. A maior parte das oficinas aconteceu nas regionais para trabalhar com esses artistas. Os espetáculos selecionados tinham linguagem bem mais próxima deles. Uma forma de não ser, o que eu chamo, de intracolonização, ou seja, levar da Centro-Sul para lá. Acho que isso é um primeiro passo para isso acontecer. Eu fiquei muito feliz de ver espetáculos do festival dentro dos aglomerados, com um público superbacana, partes bem distantes do centro da cidade, com participação efetiva da plateia, aproveitando parques, vilas. Acho que foi um grande avanço. Mais um.

E o Ponto de Encontro, responsável por colocar público e artistas juntos no mesmo espaço, não aconteceu por quê?

Foi uma questão de verba. Da forma que ele era feito custava quase 15% do orçamento do festival.

E você continua à frente da coordenação do festival? Já tem notícias?

Eu estou até com medo de descobrir isso, porque o FIT é um trabalho muito puxado, de dedicação quase exclusiva. Independente de ser eu ou outra pessoa, este ano é fundamental começar a pensar o FIT de 2016.

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