A plateia cochilou? Ótimo!

Novo tipo de experiência no teatro e nas artes visuais busca expandir a dinâmica artística, promovendo ciclos de sono

iG Minas Gerais | melena ryzik |

Espetáculo. “Dream of the Red Chamber” foi concebido para ser absorvido por uma plateia adormecida
MICHAEL APPLETON
Espetáculo. “Dream of the Red Chamber” foi concebido para ser absorvido por uma plateia adormecida

Nova York, EUA. Essa é a fantasia silenciosa de muitos frequentadores do teatro: um passeio cultural erudito que, em algum ponto entre a abertura e a ovação, inclui uma soneca. Mas a maioria dos diretores e atores conspiram para, no mínimo, manter seu público desperto.

Nem tanto para um pequeno e ambicioso espetáculo que estreou no mês passado na Times Square, “Dream of the Red Chamber: A Performance for a Sleeping Audience”. Como o título sugere, ele foi criado para ser absorvido por uma plateia adormecida: os espectadores retiram seus sapatos e cochilam em camas abaixo do Brill Building. Ao seu redor, membros do elenco em trajes elaborados interpretam cenas e gesticulam repetitivamente enquanto suas imagens são projetadas em telas espalhadas pelo espaço. As luzes são fracas; a música, constante e monótona. A ideia é que a apresentação permeie o subconsciente do visitante.

Quase mil pessoas compareceram na primeira semana, segundo organizadores, metade delas no fim de semana de estreia, quando uma apresentação atravessou a noite, durando 13 horas. A segunda e a última atuação noturna, em 17 de maio, durou das 17h às 6h da manhã seguinte.

A recente febre do teatro de imersão em Nova York e outras capitais culturais não demonstra sinais de declínio: plateias ávidas esperam dançar, jantar, beber e trocar segredos com os atores, algumas vezes durante horas. Agora, um novo tipo de experiência busca expandir ainda mais essa dinâmica artística, atraindo espectadores não só por animadas participações, mas também para compartilhar seus ciclos de sono e devaneios.

No início de maio, o Rubin Museum of Art, em Chelsea, organizou seu quarto “Dream-Over”, onde cada visitante era convidado a dormir sob uma obra de arte que um curador escolhia para ele, e acordava na manhã seguinte para uma sessão de interpretação de sonhos (com ingressos a US$ 108, o evento teve lotação esgotada). E o músico britânico Steven Stapleton vem realizando “Concertos do Sono” de 12 horas na Inglaterra, Irlanda, Suíça e Alemanha, onde os fãs cochilam com sons ambiente e vídeos – no que é por vezes chamado de “sonilóquio avant-DJ”.

“Esses pernoites se tornaram bastante disputados nos últimos anos”, declarou RoseLee Goldberg, fundadora da Performa, a bienal de apresentações artísticas em Nova York, que ofereceu uma instalação sinfônica durante toda uma noite em 2013. Numa era digital repleta de distrações, “as pessoas estão tentando encontrar maneiras diferentes de repensar a plateia e a intimidade” das apresentações ao vivo, afirmou ela. “Essa é uma questão da natureza do teatro em si, e como entrar na mente das pessoas. Assim, obviamente, se você as colocar numa cama, existe essa ideia romântica de adentrar seus sonhos”.

Nova fronteira. Embora as apresentações baseadas no sono tenham sido comuns nos últimos anos na Europa, nos Estados Unidos “essa é a nova fronteira”, explicou Mark Russell, apresentador internacional de teatro e codiretor do festival Under the Radar no Public Theater. “Isso é um tipo de tabu – para a arte, espera-se que você esteja acordado”.

Mesmo assim, acrescentou Russell com alegria, “Acho que alguns shows são realmente maravilhosos quando se está meio dormindo, e a apresentação ocorre à sua volta”. Mesmo quando não se tem a intenção, “essa é uma forma legítima de experimentar a performance”.

Daniel Varotto, 29, editor de filmes de São Paulo que hoje vive em Nova York, dormiu em “Dream of the Red Chamber” da meia-noite às 6h. “Verdadeiramente incrível”, disse ele, enquanto colocava de volta os sapatos e óculos. “Eu estava entre uma meditação e a visualização de imagens, e também atravessando alguns de meus pesadelos. Aquilo entra em sua mente de uma maneira para a qual você não está realmente pronto. Eles entram em seus sonhos”.

O espetáculo, dirigido por Jim Findlay, é uma adaptação do romance do século XVIII de Cão Xueqin, sobre a aristocracia chinesa, considerado uma das maiores obras literárias da dinastia Qing. A versão para os palcos foi desenvolvida ao longo de dois anos. A iniciativa começou como muitos experimentos: “Estávamos brincando” sobre criar uma peça para as plateias dormirem, explicou Findlay, que escreveu o roteiro com Jeff Jackson. Mas eles passaram a acreditar que a produção tinha um mérito artístico real, acrescentou ele, especialmente em como ela lidava com o tema do livro de questionar a realidade.

Eles foram inspirados por uma visita à “Dream House”, a envolvente instalação de luz e som do compositor La Monte Young, inicialmente concebida na década de 60 como uma experiência de consciência alterada. Em colaboração com a artista Marian Zazeela, a exposição está aberta ao público desde 1993.

Com apresentações durando do fim da tarde até meia-noite ou o amanhecer, “Dream of the Red Chamber” acontece no porão inacabado do edifício Brill, antigo berço de canções de Burt Bacharach e outros veneráveis da cultura pop. A entrada é gratuita, e o público pode entrar e sair quando bem entende. Passando por uma vitrine vazia repleta de telas de televisão em estática, os visitantes descem para uma sala de paredes brancas, cortinas ondulantes e camas vermelhas. Parece um mundo à parte das ruas acima, brilhantes de néon.

“O melhor é quando as pessoas acordam e dizem, ‘Isso aconteceu?’”, afirmou Findlay

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave