Espanhóis tenta reacender cena cultural sem se apoiar em gênios

Alforria de Cervantes e Almodóvar. Conheça as novas referências da seleção cultural da Espanha

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Conheça o que a Espanha exporta e mostra para o mundo além do futebol
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Na era medieval, a literatura fantástica de Miguel de Cervantes pautou o mundo. Nos anos 1980, a genialidade de Pedro Almodóvar transformou o cinema em espetáculo de cores marcado por atrizes fetiche, contrariando os enlatados de Hollywood. No mundo pop recente, Alejandro Sanz e Julio Iglesias descentralizaram o estrelato musical vindo principalmente da Inglaterra e dos EUA. De dez anos para cá, porém, a Espanha tem construído uma nova cena cultural independente, ao mesmo tempo em que tenta acabar com a “síndrome dos gênios”.   Assim como no Brasil, a arte espanhola foi marcada pelo regime ditatorial, que vigorou entre 1939 e 1976, sob a mão do general Francisco Franco. “Foram anos de repressão artística que fizeram nascer uma produção expressiva depois. O problema é que, hoje em dia, o país procura formas que representem essa geração, não mais a geração passada”, diz o diretor do Instituto Cervantes em Belo Horizonte, Ignácio Castignani.   Mesmo investindo 2% do Produto Interno Bruto (PIB) no setor cultural e ainda engatinhando para aprovar a Lei de Patrocínio Cultural – que obrigaria investimentos privados na cultura –, a Espanha vê no underground uma nova representatividade. Na música, a cidade de Madrid se tornou a capital europeia do soul e do funk, com sete festivais anuais exclusivas de música negra. “Há dois anos esse rótulo ganhou força e vai fazer história na cidade. Hoje, temos mais de 40 bandas de soul e funk, como The Cherry Boopers e Los Fulanos”, diz Ferran Amado, crítico musical do site espanhol Blackcelona.   Na literatura, a situação é menos inovadora. Com 80% dos agentes literários concentrados em Barcelona, são poucas as oportunidades para novos talentos. Segundo a escritora Caren Santos, fundadora da Associação de Jovens Escritores Espanhóis, que funcionou entre 1992 e 1998, o desafio é construir obras que se desassociem do herói fantástico, herança da literatura do século XVII. “Hoje temos Elvira Navarro, Javier Montes, Andrés Barba e Pablo Gutiérrez, que se preocupam em escrever sobre anseios humanas cotidianos, focados na busca de identidade, tédio e experiências biográficas. Mas é algo que tem pouco espaço no mercado ainda”, diz.   Sem investimentos também no cinema – que teve queda de arrecadação em 30% no ano passado e perdeu 200 salas de exibição nos últimos dez anos –, a Espanha tem vários diretores ainda influenciados por Almodóvar. Apesar disso, nomes como Daniel Sánchez Arévalo e Neus Ballús buscam um olhar calcado na realidade social espanhola. “Precisamos de algo similar à Unifrance, que divulga os filmes franceses no exterior. Os cineastas espanhóis não têm dinheiro para fazer filmes nem aonde exibir”, diz Antonio Onetti, presidente da Sociedade Geral de Autores e Editores (SGAE) da Espanha.   
  • / MÚSICA
  •   Pablo Alborán Aos 24 anos, é um dos expoentes da música pop espanhola. Escreve canções e toca guitarra e piano desde os 12 anos, quando começou a gravar vídeos no YouTube no sofá de casa. Em 2011, estreou com o álbum “Pablo Alborán”, mesmo ano em que gravou “En Acústico” e foi indicado a três Grammys Latinos, sendo apadrinhado pelo astro latino Rick Martin, com quem cantou na Índia. Em 2012, gravou o disco “Tanto” e fez shows na Argentina, Chile e México.   The Sweet Vandals Uma das referências em soul na Espanha também é um dos raros exemplos de produção independente de sucesso no país. Formada em 2005, The Sweet Vandals fez pequenos shows em pubs de Madrid até lançar o single “I Got You Man” e estourar. Com três discos, o último trabalho, “After All” (2013), foi lançado pelo selo próprio Sweet Records e é considerado o melhor da banda – a ideia do grupo, aliás, é sobreviver sem apoio de gravadoras. Sustentados pela voz forte de Mayka Edjo, os músicos Jose Herranz (guitarra), Santi Martín (baixo), Javi (bateria) e Santiago Vallejo (órgão eletrônico) rapidamente se tornaram um fenômeno da explosão da música negra na Espanha, tendo participações no Black in Back, principal festival de soul e funk da Espanha, além do Blackcelona Explosion! e Slap Festival de Zaragoza. Também tocaram em mais de 15 países, como Suíça, Holanda, Bélgica, Inglaterra e México.  
  • / CINEMA
  •   Neus Ballús Mestre em documentário pela Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, a diretora de cinema de 34 anos é uma das promessas da sétima arte espanhola. Com estilo que explora a solidão de personagens no mundo atual, ela tem dois filmes na carreira: “Imersão” (2009) e “A Praga” (2013). Este último chegou aos cinemas brasileiros após a indicação de melhor filme ao Festival de Berlim, e as conquistas do Prêmio Goya e do Prêmio Descoberta Europeia, no ano passado.   Daniel Sánchez Arévalo Roteirista, produtor e diretor de cinema, Daniel Sánchez, 43, tem uma carreira sustentada em sete curta-metragens e outros quatro longas que colecionam mais de 50 indicações a prêmios. Ele ganhou destaque após a pré-seleção espanhola de indicação ao Oscar pelo curta “Física II” (2004). Filho do cartunista José Ramón Sánchez, ele tenta fugir da escola de Almodóvar ao explorar personagens caricatos, complexos e às vezes macabros, que são transportados para enredos cotidianos dos espanhóis. O primeiro curta, “Go!” (2002), foi feito literalmente com uma câmera de vídeo caseira na mão e uma ideia na cabeça, e acabou vencedor do Prêmio Especial do Júri do Notodofilmfest, principal festival de curtas pela internet da Espanha. Seu último longa, “Azul Escuro Quase Preto” (2012) foi indicado a 12 categorias do Prêmio Gaya, o mais importante do cinema espanhol.  
  • / LITERATURA
  •   Elvira Navarro Desde criança envolvida com as letras, Elvira Navarro, 34, é leitora voraz de Clarice Lispector e escreve basicamente sobre infelicidade. Uma das suas características é criar personagens adolescentes para falar de temáticas adultas, sem perder a alta dose de realismo textual. Tem quatro livros publicados, entre eles “A Cidade Feliz” (editora Mondadori, 2007), romance de estreia que venceu o prêmio Novel XXV Jaén e IV Prêmio Tempestade de Melhor Escritor. É considerada uma das 22 revelações de escritores em língua espanhola no mundo. Seu trabalho rendeu uma publicação no “Os Melhores Contadores de Histórias em Espanhol”, publicado pela editora Granta em 2010. Autora do blog La Tomenta En Un Vaso,a escritora Elvira Navarro ainda se dedica a publicar diariamente uma crítica literária na internet, preferencialmente de algum livro espanhol. A maioria dos livros é de jovens autores estreantes, que ao final de cada ano disputam premiações oferecidas pelo blog na Feira do Livro de Madrid.   Javier Montes Designer de interiores por formação, Javier Montes, 41, é apontado como futuro autor de best-sellers na Espanha. Com quatro títulos publicados e uma linguagem pós-moderna que abusa do suspense, o escritor espanhol foi convidado da Festa Literária Internacional de Paraty no ano passado, e publicou seu mais recente livro,“O Mestre Sombra” (editora Bárbara Fiora, 2014), em fevereiro.  

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