Cena cultural italiana vive período de pouca inspiração e ousadia

Em busca de espaço. Conheça as novas referências da seleção cultural da Itália

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Conheça o que a Itália exporta e mostra para o mundo além do futebol
Conheça o que a Itália exporta e mostra para o mundo além do futebol
O berço do Renascimento de Michelangelo e Leonardo Da Vinci está lá, intacto, assim como as óperas de Luciano Pavarotti e o olhar poético de Felini. Apesar de guardar uma das cenas artísticas mais eruditas do mundo, a Itália mostra na última década que, muito além da contemporaneidade de Laura Pausini e do fenômeno DJ Gigi D’Agostino, o cinema, a literatura e a música do país têm sentido necessidade de mostrar cenas mais diversificadas ainda.   No cinema, um grupo de diretores e roteiristas tem tentado recuperar o brilho da sétima arte italiana, através do Risorgimento – uma atualização do neorealismo, corrente que criticou a sociedade italiana com ativismo político na metade do século XX. “O cinema italiano foi o mais expressivo do mundo na década de 40, tendo no hoje abandonado Cinecittà o melhor estúdio de cinema. Hoje, nomes como Paolo Sorrentino, Luca Guadagnino e Matteo Garrone bebem na mesma fonte do neorealismo, trazendo modernidade à linguagem, falando da imigração, da pobreza e de dilemas jovens”, avalia o crítico de cinema italiano André Saturno, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).   Na música, a transgressão na Itália aparece de forma mais expressiva, apesar de receber pouca atenção da mídia local. Enquanto novas cantoras pop como Giorgia e Anna Tatangelo têm destaque midiático, várias bandas novas de rock que se formaram no meio underground nos últimos cinco anos, como a metaleira Ryme, que fez turnê com Papa Roach em 2012, além de nomes como Kaosmos e Zero Absoluto, vivem no submundo da música. “O fato é que há uma necessidade de falar sobre coisas não clássicas na Itália, e o rapper Fabri é uma exceção dos que têm repercussão. Apesar de a crise da Europa afetar o cenário artístico, os caras que tocam em pubs undergrounds sentem menos, por isso se multiplicaram”, diz o cantor e produtor musical italiano Sérgio Di Napoli, radicado no Brasil.   Assim como na música, a crise europeia afetou também a literatura da Itália, que viu o número de leitores cair de 2 milhões para 900 mil nos últimos 15 anos. Para o professor Júlio Pimentel, do Departamento de História da USP, que pesquisa a literatura italiana, os novos autores da Itália, que têm tendência de publicar livros mais enxutos e mais baratos, ainda não descobriram a nova paixão pelo país.   “Os últimos autores italianos militantes e engajados são Gianrico Carofiglio e Niccoló Ammaniti. Os mais recentes, Roberto Saviano e Paolo Giordano, conseguiram emplacar best-sellers sociais há uns anos, mas pararam por aí por enquanto. Há um cenário para se explorar na Itália que é a falta de paixão pelos temas atuais do país, que foi produtor de tantos clássicos”, diz.    
  • / MÚSICA
  •   Anna Tatangelo O nome mais jovem e representativo do pop melódico italiano, Anna Tatangelo, 27, iniciou a carreira com apenas 7 anos, cantando em pequenos festivais regionais da cidade de Sora, na periferia da Itália, onde nasceu e passou parte da infância. Ganhou visibilidade ainda adolescente, aos 15 anos, ao vencer o Prêmio Iniciante do Festival de Música de Sanremo – um dos principais concursos de canto da cidade, conquistado por Laura Pausini no início da carreira. Na Itália, ela é chamada pelos fãs de “ragazza di periferia” (garota da periferia), que é o nome de um single da cantora de 2005. Seu som hoje é considerado ousado e atual por carregar letras duras que falam sobre homofobia, anorexia e violência contra as mulheres. Casada com o cantor e parceiro em vários trabalhos Gigi D’Alessio, ela carrega seis álbuns na carreira, sendo o mais recente intitulado “Projeto B” (2011), que ainda mantém shows pela Europa. Em 2012, foi jurada do programa de TV “X Factor Itália”, que revela jovens cantores.   Fabri Fibra Em atividade musical desde 1995, o rapper italiano Fabri Fibra, 37, engrenou a carreira apenas quando estreou o disco solo, “Problemas Juvenis” (2002), após deixar a banda de rock Uomini de Mari. Suas letras falam principalmente da exclusão de jovens pobres italianos. Uma máquina de fazer discos, o rapper que se autointitula um expoente da contracultura na Europa, já tem 16 álbuns solo.  
  • / CINEMA
  •   Matteo Garrone Um dos principais diretores da chamada corrente contemporânea do neorealismo italiano, Matteo Garrone, 45, tem se destacado pelo seu olhar sombrio, cru e autêntico da sociedade da Itália. Em seus filmes, ele usa a influência do pai, o crítico teatral Nico Garrone, e mescla atores profissionais e amadores nas produções para ter uma alta dose de realismo. Em quase toda a sua carreira de sete longas no currículo, o cineasta se dedicou a contar histórias de pessoas reais, em vez de simplesmente denunciar problemas da sociedade por metáforas ou personagens fictícios. Seu filme de maior sucesso, “Gomorra” (2008), adaptado do consagrado romance espanhol de Paolo Giordano, que retrata a ação da máfia italiana conhecida como Camorra, venceu o Grand Prix do Festival de Cannes, foi indicado ao Globo de Ouro e levou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Chicago. O último longa dirigido por ele, "Realidade" (2012), também concorreu em Cannes.   Emanuele Crialese  Da leva de novos cineastas, Emanuele Crialese, 48, tem apenas quatro longas e um curta na carreira, mas tem chamado a atenção por abordar o comportamento atual do europeu. Ganhou destaque na Itália com “Novo Mundo” (2006), que integrou o Festival de Veneza. Seu último longa, “Terraferma” (2011), sobre a imigração clandestina na Europa, foi pré-selecionado para o Oscar, mas não integrou a lista final.  
  • / LITERATURA
  •   Roberto Saviano Promessa de publicação de best-sellers na Itália, o escritor e jornalista Roberto Saviano, 34, tem misturado a narrativa literária minimalista à investigação jornalística para consolidar um novo estilo de escrita. É autor de "Gomorra" (2002), que documenta a máfia italiana com ricos detalhes, e o mais recente, “ZeroZeroZero” (2013), que destrincha os acordos feitos entre líderes do narcotráfico da Colômbia e México na década de 1980.   Paolo Giordano Com apenas 32 anos, Paolo Giordano é o escritor mais jovem a vencer o Prêmio Strega, o principal da literatura italiana, com seu romance de estreia, “A Solidão dos Números Primos” (publicado no Brasil pela editora Rocco, em 2008). O livro vendeu mais de 1 milhão de cópias e também ganhou uma adaptação para o cinema. Apesar do estilo inovador que faz reflexões amplas sobre o modo de vida dos italianos, a pressão do sucesso instantâneo quase fez o promissor escritor a abandonar a literatura. PHd em física pela Universidade de Turim, em Torino, ele mudou de ideia e trocou os números pelas letras, após passar uma temporada no Afeganistão. Como fruto da viagem, veio a publicação recente do segundo livro, “O Corpo Humano” (editora Bertrand, 2013), que faz uma metáfora sobre a tomada de decisões na vida, em meio a uma guerra real.

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