O senhor do palácio

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“90% das piadas sobre argentinos foram criadas pelos próprios, que possuem um mordaz humor sobre eles e o país”
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“90% das piadas sobre argentinos foram criadas pelos próprios, que possuem um mordaz humor sobre eles e o país”

Jornalista, escritor e um dos melhores correspondentes internacionais da TV por assinatura, Ariel Palácios não vai lançar seu livro – em parceria com o colega Guga Chacra – “Os Hermanos e Nós”, em Belo Horizonte. Ariel veio de Buenos Aires, e Guga, de Nova York e lançaram o livro sobre o futebol de Argentina e Brasil, em São Paulo. A seguir, seu gol de placa.

Ariel, você mora em Buenos Aires e seu colega, Guga Chacra, em Nova York. Vocês acabam de lançar o livro “Os Hermanos e Nós”? É para pegar carona na Copa?

Pega carona na Copa, mas pode ser lido fora de tempos “copísticos” (ou copeiros?). Pode ser lido por quem gosta de futebol e por quem odeia, já que não nos concentramos apenas nos jogos, mas também na política vinculada ao futebol, as gírias da área, os imigrantes e o futebol, a gastronomia, a religião, os jogadores... Você nasceu na Argentina e cresceu no Brasil. Vai torcer para quem?

Nasci em Buenos Aires, mas sou brasileiro. Tenho passaporte brasileiro, como Clarice Lispector, Guido Mantega, Giulia Gam, Dina Sfat, Adolfo Bloch, D. Pedro I, Carmen Miranda, Vladimir Herzog. Na única lógica, sempre torço pelo Brasil. Qual a melhor piada sobre argentinos que você conhece?

“O suicídio mais eficaz é quando um argentino pula do alto de seu próprio ego”. 90% das piadas sobre argentinos foram criadas pelos próprios, que possuem um mordaz humor sobre eles e o país. E sobre brasileiros?

Não existe. Não se faz piada sobre brasileiros na Argentina. Existem montanhas de piadas sobre os imigrantes da Galícia, os “gallegos”, o principal contingente de imigrantes da Espanha no século XX. A economia argentina daria um tango muito dramático?

Não um tango, mas uma tragicômica opereta de Franz Léhar ou Jacques Offenbach. Com medidas atrapalhadas dos ministros e o sinistro empobrecimento de milhões de pessoas, enquanto os políticos ficam ricos. O livro de vocês têm muitos “impropérios” no glossário. Qual o seu palavrão ou insulto favorito em “argentinês”?

Não digo palavrão algum, exceto “cazzo”, em bom italiano, quando bato no dedão com um martelo. Abomino palavrões, mas são tremendamente interessantes porque mostram bem como pensa uma sociedade. O impropério “boludo” é um clássico argentino. Paradoxalmente, refere-se a quem tem testículos grandes. Mas, como perdeu potência nos últimos anos, está perdendo espaço para o “pelotudo” (também referente aos testículos), mais sonoro e impactante. No Brasil do absurdo, jogaram um vaso sanitário, matando um torcedor, em Recife. A Argentina tem estas baixarias criminosas?

Sim, infelizmente o futebol gera esse tipo de comportamento de vândalos. As autoridades deveriam ter vergonha na cara e tomar medidas concretas. Mas os cartolas e políticos geralmente minimizam essas coisas, alegando que trata-se de “paixão esportiva”. O mesmo assassinato com um vaso sanitário, em uma rua, por exemplo, teria sido levado mais a sério. Mas dentro de um âmbito futebolístico tudo é incompreensivelmente perdoado.

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