Minha flor

iG Minas Gerais |

acir galvao
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“Sois belas, mas vazias. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o para-vento. Foi dela que eu matei as larvas. Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa." (Antoine de Saint-Exupéry — O Pequeno Príncipe) Hoje eu vou contar a história de uma flor. Não uma flor qualquer... essa flor é minha. E, na verdade, essa história é nossa. Quando a vi pela primeira vez, foi paixão imediata. Não esperei ser presenteada, eu mesma fiz questão de comprar e levá-la para a minha casa. Sempre espalhei para os namorados, amigos e parentes a minha predileção por gérberas, porém, continuo, até hoje, ganhando rosas e margaridas... Por isso, nem pensei duas vezes. Passei a mão no vasinho e o levei para a minha casa. Nosso encontro foi bem inesperado. Em um dia qualquer, caminhando pelos corredores do Carrefour, olhei por acaso para o lado esquerdo e lá estava ela. Tão sozinha! Esperando que alguém se apaixonasse à primeira vista e calhou desse alguém já ser apaixonado antes mesmo de conhecê-la. Eu já a amava na minha imaginação. Aquele tipo de sonho que meninas têm mania de sonhar, de que um dia terão uma casa com jardim... Pois no meu jardim imaginário, ela sempre apareceu ocupando o lugar principal. Eu comecei, então, a tomar conta dela. Aprendi que gérberas gostam de pouca água e muito calor, mas apenas com luz indireta. Aprendi que são resistentes e pude comprovar isso: logo acompanhei o nascimento de uma nova irmãzinha para a minha flor e a terceira delas nasceu na semana passada, meio tímida, mostrando para o mundo, aos poucos, sua roupa cor-de-rosa. Foi quando eu cheguei à conclusão que era hora de mudar a minha flor (mesmo já sendo uma “família de flores”, ela continuou tendo esse nome) para uma casa maior. Aquele vasinho estava pequeno para todas aquelas novas folhas e, do jeito que elas gostam de se esparramar, em pouco tempo saltariam para o chão. Voltei ao Carrefour, apenas para comprar um vaso maior e tomei um susto quando as vi. Várias outras flores, tão iguais, mas tão diferentes da minha... Mesmo tamanho, mesmo gênero... porém tão anônimas. Me senti como o “Pequeno Príncipe”, ao se deparar com o canteiro de rosas e constatar, com decepção, que sua rosa não era a única no mundo! Mas, ao contrário dele, eu não resisti, assim como não resisto ao ver um cachorrinho perdido no meio da rua. Catei as florzinhas e as levei também para a minha casa. Ao colocar todas juntas, senti uma certa tristeza, como se eu estivesse traindo a minha primeira amiguinha... Como se todo o amor que eu vinha dedicando a ela tivesse agora que ser compartilhado... Então, eu lembrei novamente da história do “Pequeno Príncipe”. E foi como se as páginas desse livro se abrissem, clareando a minha mente. Compreendi que a minha flor vai continuar sendo única. Porque como o principezinho, eu também entendi a lição: o tempo que eu perdi com ela é que a fez tão importante. As outras podem até vir a ser mais belas, mas elas ainda não me cativaram... Já aquela primeira, me fez ter vontade de tornar real o jardim dos meus sonhos. Ela, sim, vai ser, para sempre, a minha flor.

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