“The Normal Heart” fala sobre uma geração perdida

Telefilme que estreia neste sábado (31) na HBO, conta a história das primeiras vítimas da Aids

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Mark Ruffalo e Matt Bomer vivem casal inspirado em ativistas reais que lutaram contra a Aids
Divulgação
Mark Ruffalo e Matt Bomer vivem casal inspirado em ativistas reais que lutaram contra a Aids

“Por que estão nos deixando morrer? Por que ninguém está nos ajudando?”. O grito desesperado é feito em diferentes momentos por vários personagens de “The Normal Heart”. A resposta vem na elegia que o administrador hospitalar Tommy Boatwright (Jim Parsons, de “The Big Bang Theory”) faz no velório de um amigo. “A verdade é que eles simplesmente não gostam de nós”.  

Adaptado por Larry Kramer a partir de sua própria peça, o telefilme que estreia neste sábado às 22h na HBO acompanha um grupo de amigos homossexuais entre 1981 e 1984, durante o surgimento da Aids em Nova York. Na época, a doença não tinha nome, ninguém sabia como era transmitida nem qual era a cura. E como era vista apenas como um “câncer gay”, ninguém estava muito interessado em descobrir.

Baseada em fatos reais, a história traz Mark Ruffalo como o alter-ego de Kramer, o escritor Ned Weeks. Ele cria a organização Gay Men’s Health Crisis (GMHC) para lutar contra a doença, enquanto vê o namorado Felix Turner (Matt Bomer) morrer da doença.

É importante ressaltar aqui que Weeks não é o Ron Woodroof de “Clube de Compras Dallas”. Ele não salva ninguém em um cavalo branco. “The Normal Heart” não é uma história de heroísmo. É o retrato real de um genocídio silencioso. De “uma geração perdida, peças que nunca serão escritas, coreografias nunca dançadas”, como Boatwright coloca na elegia citada no primeiro parágrafo. De milhares de pessoas que morreram porque “eles simplesmente não gostam de nós”.

O grande mérito do texto de Kramer, no entanto, é não ser uma mera história de vitimização gay. Sua relevância antropológica está em mostrar o que a Aids significou para a história LGBT – especialmente para a geração do início dos anos 1980, que acreditava que a revolução sexual da década de 70 e o sexo livre haviam trazido o fim do preconceito e o escancaramento do armário.

O que o vírus HIV faz é trazer a culpa de volta à essa equação, revelando o castelo de cartas por trás do conto de fadas. De repente, gays eram facilmente identificados nas ruas pela magreza esquelética, as feridas assustadoras, a debilidade. E o preconceito estava lá, no rosto das pessoas, mais forte que nunca. A cena em que Felix, um repórter do “New York Times” não-assumido, sente os olhares de asco e pânico ao seu redor no metrô deixa isso bem claro.

A Aids revelou que o sexo livre por si só era meramente uma aceitação do preconceito, uma resignação ao gueto da negação e hedonismo – era resumir-se a um estereótipo que escondia muito de autodesprezo. E o que “The Normal Heart” mostra é que, com a doença, aceitar esse tratamento diferente, esse ser visto como inferior, era aceitar a morte.

Ao tornar impossível ignorar a discriminação, o HIV força os gays a se olharem no espelho e decidirem se gostavam de si mesmos o bastante para lutar. A se levantarem e gritarem “você pode não gostar de mim, mas eu gosto o bastante por nós dois e tenho tanto direito de viver quanto qualquer outra pessoa”. Como a médica paraplégica vivida por Julia Roberts – uma das poucas que se dispôs a tratar e estudar a doença na época – explica para Ned, a homossexualidade assusta porque “as pessoas têm medo de verdade e honestidade. Aprenda a usar isso a seu favor”.

A genialidade do roteiro de Kramer é usar seus próprios personagens como alegorias desses dois lados da doença. O belo Bruce Niles (Taylor Kitsch), que coordena a GMHC ao lado de Weeks, representa a tentação do prazer e a negação do papel do sexo na epidemia em curso. Não por acaso, ele é um anjo da morte que vê seus namorados perecerem um após o outro. Já Ned é a histeria do pânico e da culpa, que grita para que as pessoas parem de transar até que as formas de transmissão sejam confirmadas – e por isso, é visto como um homofóbico enrustido.

Que Mark Ruffalo consiga infundir essa histeria com paixão e indignação, e não afetação ou maneirismos, é o grande mérito de sua performance. Especialmente num filme dirigido por Ryan Murphy, um diretor que não prima pela sutileza. Alicerçando o longa no poder do roteiro, seu maior acerto é filmar quase toda a história em apartamentos e locais fechados, como se a doença forçasse os personagens de volta para dentro do armário.

O diretor abusa das imagens fortes e da dramaticidade que o tema permite, dando aos atores liberdade para usar o set como um palco em seus monólogos teatrais. O de Julia Roberts deixa claro porque ela foi escalada para o papel, já que a única pessoa capaz de dar um sermão melhor na América seria Oprah Winfrey.

Felizmente, o estilo “mais é mais, e muito mais é muito melhor” de Murphy se mostra contido nas sequências de sexo. A nudez mais forte do longa traz Ruffalo e Bomer no banheiro, numa cena que mostra que, em “The Normal Heart”, o amor pode ser muito mais assustador e brutal que o sexo. Porque o filme não quer chocar ou fazer chorar. Ele quer te deixar indignado e consciente de que, quando você sai no meio de um filme porque “simplesmente não gosta” do afeto entre dois homens está mantendo vivo um preconceito que exterminou quase toda uma geração.

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