Natureza se adapta a Chernobyl

Reportagem mostra como a natureza 'aprendeu' a utilizar o espaço radioativo de Chernobyl; dentre os exemplos, há espécies de pássaros que produziram níveis mais elevados de antioxidantes protetores; leia

iG Minas Gerais | Henry Fountain |

Um cogumelo na floresta perto de Novoshepelychi, aldeia abandonada na zona de exclusão de Chernobyl
Henry Fountain / The New York Times
Um cogumelo na floresta perto de Novoshepelychi, aldeia abandonada na zona de exclusão de Chernobyl

Novoshepelychi, Ucrânia - O estalo do detector de radiação de Timothy Mousseau gradativamente aumentou quando ele adentrou a floresta aqui, alguns quilômetros a oeste da usina de energia nuclear de Chernobyl. Quando parou para examinar uma teia de aranha em um galho de árvore, o visor do dispositivo mostrou 25 microsieverts (unidade de medida para avaliar os efeitos biológicos da radiação) por hora.

Isso é comum, disse Mousseau, para esta área não muito distante de Novoshepelychi, um dentre as centenas de vilarejos que foram abandonados após a precipitação radioativa da explosão do reator na usina em 1986 ter tornado uma vasta parte desta região inabitável.

Os níveis de radioatividade aqui são bem menores do que aqueles ainda encontrados em partes do abrigo em deterioração que cobre o reator destruído – um abrigo que, por volta de 2017, será ele próprio coberto por uma grande estrutura em forma de arco, cuja finalidade é eliminar a ameaça de haver uma contaminação radiativa ainda mais profunda.

Mas os níveis nesta clareira na planície, onde acácias e pinheiros escoceses se intercalam com a aparição ocasional de celeiros em ruínas, são mais altos do que o normal. Em 10 dias aqui, uma pessoa seria exposta a uma quantidade de radiação equivalente a que um residente dos Estados Unidos recebe de todas as fontes emissoras de radiação em um ano. Isso torna a área proibida, a não ser que se trate de breves incursões, mas é um bom local para estudar os efeitos a longo prazo da radiação nos organismos.

“Esse nível de exposição crônica está acima do que a maior parte das espécies poderia tolerar sem demonstrar alguns sinais, tanto em termos de quanto tempo sobrevivem quanto em relação ao número de tumores que têm, ou mutações genéticas e cataratas”, disse Mousseau. “É um laboratório perfeito estabelecido para nós”.

Mousseau, biólogo na Universidade da Carolina do Sul, tem ido à área contaminada próxima de Chernobyl, conhecida como zona de exclusão, desde 1999. A lista de criaturas que ele estudou é extensa: felosinhas, toutinegras-de-barrete-preto, andorinhas-da-chaminé e outros pássaros; insetos, incluindo marimbondos-mangangá, borboletas e cigarras; aranhas e morcegos; e ratos, ratos-dos-matos e outros pequenos roedores. Após o acidente nuclear em Fukushima, no Japão, três anos atrás, ele conduziu pesquisas similares naquela região também.

Em dúzias de relatórios feitos ao longo dos anos, Mousseau, seu colaborador de longa data, Anders Pape Moller, do Centro Nacional de Pesquisa Científica na França, e colegas de profissão relataram evidências dos danos da radiação: aumento na frequência de tumores e anomalias físicas, como bicos deformados entre os pássaros, comparados àqueles que habitam áreas não contaminadas, por exemplo, e um declínio nas populações de insetos e aranhas com aumento da intensidade de radiação.

Mas suas descobertas mais recentes, publicadas no mês passado, mostraram algo novo. Algumas espécies de pássaros, relataram eles no periódico Functional Ecology, parecem ter se adaptado ao ambiente radioativo produzindo níveis mais elevados de antioxidantes protetores, correspondentemente com menos danos genéticos. Para esses pássaros, disse Mousseau, a exposição crônica à radiação parece ser um tipo de “seleção não natural” conduzindo mudanças evolutivas.

Radiações iônicas, como as produzidas por césio, estrôncio e outros isótopos radioativos, afetam tecidos vivos de diversas maneiras, entre elas está a quebra de filamentos de DNA. Uma dose suficientemente alta – milhares de vezes mais alta do que os níveis existentes na floresta – pode provocar enfermidades ou morte. Foi isso que aconteceu com diversos técnicos e bombeiros na usina de Chernobyl quando o reator da Unidade 4 explodiu, em 26 de abril de 1986. Eles foram expostos a doses letais, em muitos casos em apenas alguns minutos, e seus órgãos e tecidos foram danificados de forma tão agressiva que eles morreram em poucas semanas.

Doses relativamente baixas de radiação, entretanto, mesmo durante um longo período, podem ter nenhum ou pouco efeito. Mas doses mais baixas podem causar mutações genéticas, levando a cânceres e outros problemas físicos, que podem aparecer por longos períodos e afetar as criações e a longevidade. Estudar os efeitos em animais e insetos pode levar a um melhor entendimento do impacto em seres humanos também.

Alguns pesquisadores questionaram os estudos de Mousseau e seus colaboradores, argumentando que é difícil demonstrar que os níveis de radiação na zona de exclusão, que abarca cerca de 2.500 quilômetros quadrados, tenham tido um efeito muito notável. Houve também relatos casuais sobre populações abundantes de alguns animais na zona, sugerido que a ausência de atividade humana ali fez com que a área se tornasse um refúgio para a vida selvagem.

Mousseau descarta a ideia de que a zona seja alguma espécie de Éden pós-apocalíptico. Mas o estudo mais recente lhe deu uma pausa, ele disse, porque mostra o tipo de adaptações que podem permitir a certas criaturas – tentilhões e chapins-reais, neste caso, embora não seja o caso das andorinhas-da-chaminé ou dos pintarroxos – se desenvolverem na área. Entretanto, ainda é necessário verificar se essas espécies realmente estão se desenvolvendo, disse Mousseau.

As descobertas também sugerem que em alguns casos os níveis de radiação podem ter um efeito inverso – pássaros em áreas com maior exposição à radiação podem mostrar melhor adaptação e, deste modo, menos danos genéticos do que aqueles em áreas com níveis mais baixos de radiação.

Como quase todos os estudos feitos por Mousseau e seus colegas de trabalho, o mais recente tira vantagem das circunstâncias ímpares da zona de exclusão de Chernobyl, considerado um laboratório no mundo real. “A natureza é um ambiente muito mais estressante do que o laboratório”, diz Mousseau. Anomalias e outros efeitos da radiação são vistos em níveis bem mais baixos de radiação do que em estudos feitos em laboratórios, ele disse.

Os níveis de radiação na zona também variam consideravelmente de um lugar ao outro, porque os padrões climáticos durante o acidente e os resultados por ele provocados afetaram a intensidade da precipitação radioativa.

Não distante daqui fica uma das áreas mais radioativas, a chamada Floresta Vermelha, onde os níveis de radiação foram tão altos nos dias seguintes ao acidente que pinheiros escoceses ficaram vermelhos e morreram.

“Mas a cerca de 15 a 25 quilômetros de distância daqui há áreas que estão absolutamente limpas”, disse Mousseau. “Isso nos dá a habilidade de comparar áreas com maior ou menor grau de contaminação que são ecologicamente similares na maior parte dos casos, exceto para radiação”. Essas comparações normalmente mostraram menor abundância de pássaros e roedores nas áreas mais radioativas.

Neste dia, enquanto colaboradores da Finlândia estavam inspecionando armadilhas e coletando ratos para estudos genéticos, Mousseau estava reunindo material para outro projeto. Ele fotografou teias de aranha.

Mousseau se pergunta se a exposição à radiação pode ter afetado a capacidade que as aranhas têm de tecer teias, assim como a cafeína e outras substâncias conhecidamente o fazem. Então, quando ele voltar para a Carolina do Sul, pedirá a seus estudantes que analisem sistematicamente as fotografias – ele tirou mais de 200 – à procura de sinais de desordem.

Mousseau disse que durante anos conduziu a pesquisa sobre Chernobyl muito mais por interesse pessoal. Mas isso mudou após o acidente nuclear na usina de Fukushima, no Japão, em 2011. Embora ambos os acidentes tenham sido diferentes – em Chernobyl o reator explodiu, enquanto em Fukushima os centros derreteram e houve uma explosão fora do reator –, o resultado foi basicamente o mesmo: contaminação radioativa em uma extensa área.

“Ninguém realmente esperava que fosse haver outro acidente nuclear dessa escala”, ele disse. “Mas agora é evidente, após Fukushima, que tudo isso tem uma grande relevância.”

Mousseau expandiu seu trabalho para incluir estudos similares no Japão – ele fez cerca de 10 viagens para lá. Disse já estar observando efeitos similares aos de Chernobyl na área contaminada próxima à usina de Fukushima, mas precisa reunir dados por pelo menos mais alguns anos antes de tirar alguma conclusão sobre o impacto.

“Se encontrarmos o mesmo tipo de resposta em ambos os lugares”, ele disse, “será dado um incrível impulso à hipótese de que realmente é a radiação que está levando a esses impactos negativos”.

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