Parto normal ruim no país provoca corrida às cesáreas

Estudo mostra que 52% das mães optam pela cirurgia, maioria influenciada pelo sistema

iG Minas Gerais | Litza Mattos |

Medo. Cristiane escolheu a cesárea para ter Cecília, 11 meses, após ver sua amiga sofrer 18 horas no parto normal. Ela diz que falta preparo dos médicos, e que partos normais são feitos até por enfermeiras
Arquivo pessoal
Medo. Cristiane escolheu a cesárea para ter Cecília, 11 meses, após ver sua amiga sofrer 18 horas no parto normal. Ela diz que falta preparo dos médicos, e que partos normais são feitos até por enfermeiras

Rio de janeiro. As grávidas brasileiras são convencidas ao longo da gestação a terem seus filhos por cesárea. É o que mostra o estudo “Nascer no Brasil – Inquérito sobre Parto e Nascimento”, coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz.  

Do total de mulheres ouvidas, 72% queriam parto normal logo que engravidaram. Os bebês nasceram por cesárea em 52% dos casos. A situação é mais grave na rede particular. Entre as mulheres que esperavam o primeiro filho e foram atendidas em hospitais pagos, o índice de mulheres que desejava cesárea era de 36% no início da gestação. Ao fim dos nove meses, essa proporção havia subido para 67%. Ainda que um terço das mulheres quisesse o parto normal, 89,9% tiveram seus filhos pelo método cirúrgico.

Entre as mulheres atendidas na rede pública, 15% queriam a cesárea tanto no início quanto no fim da gestação – 44% tiveram seus bebês dessa forma. “Tem uma cultura instituída de que a cesárea é o melhor método para se ter filho. Talvez elas não sejam informadas dos riscos. A cesariana aumenta o risco de morbidade respiratória nos bebês, também aumenta o risco de internação em UTI. Também faz aumentar os óbitos maternos. Em gestações subsequentes, pode haver placentação anormal, já que o útero não é mais íntegro. Outra questão é que o bebê não se coloniza com as bactérias da mãe, já que não passou pelo canal vaginal. Ele se coloniza com a flora bacteriana hospitalar. Os efeitos, a longo prazo, são o risco maior de síndrome metabólica, asma e diabete”, alertou a pesquisadora Maria do Carmo Leal, coordenadora da pesquisa.

Para a pesquisadora Silvana Granato, subcoordenadora da pesquisa, as mulheres fazem mais cesáreas “porque o nosso parto normal é muito ruim”. Ela se refere ao número de intervenções desnecessárias, como episiotomia (corte na vagina para facilitar a saída do bebê) e aplicação de ocitocina (hormônio sintético indutor de contrações).

Das mulheres entrevistadas, apenas 45% disseram que desejavam a gravidez. “Um quarto das gestações terminam em aborto. Há uma falha no planejamento da gravidez e é preciso falar sobre isso agora. Temos de parar de fazer de conta que está todo mundo feliz com a gravidez. Está na hora de discutirmos o aborto no país”, defendeu Silvana. A depressão materna foi detectada em 26% das mulheres, entre 6 e 18 meses após o parto.

Mãe não se arrepende de escolha O trauma de ter visto uma amiga em trabalho de parto por 18 horas e seu bebê ter nascido com problemas cardíacos levaram a administradora Cristiane Souza Evangelista, 35, a optar pela cesariana. “Eu estava com pouco líquido amniótico, e o parto teve que ser antecipado, mas não me arrependo. Eu optaria pela cesárea pelo simples fato de evitar o sofrimento, tanto pra mim quanto para minha filha”, afirma a mãe da Cecilia, 11 meses. Para Cristine, a rápida recuperação do parto normal não compensa o desgaste. “Mesmo com a recuperação mais demorada e dolorosa, ter feito a cesárea foi ótimo. Hoje já quase não tenho a cicatriz e já voltei ao peso normal”, diz. Segundo ela, para que o índice de parto normal aumente é preciso ter mais profissionais e hospitais qualificados. “Até acho que o parto normal poderia ser bom se tivesse um acompanhamento melhor, além de mais médicos competentes. Porque hoje, o que vemos, é que muitos partos ficam na mão de enfermeiros. A saúde pública está um caos”, afirma.

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