O fantasma do preço da liberdade

Exibido nas mostras do Rio e São Paulo, “Setenta” reúne envolvidos no sequestro de embaixador suíço

iG Minas Gerais | daniel oliveira |

“Setenta” conta com imagens filmadas por Haskall Wexler no Chile
Livres Filmes
“Setenta” conta com imagens filmadas por Haskall Wexler no Chile

Algumas semanas atrás, a diretora Emilia Silveira foi apresentar seu documentário “Setenta” – sobre o sequestro de um embaixador suíço em 1970, no auge da ditadura militar – em uma escola de uma comunidade carente no Rio de Janeiro. “No final da sessão, um aluno de 17 anos me parabenizou pelo filme, mas queria saber o que era uma ‘ditadura’”, ela lembra.

O episódio, para Silveira, é o retrato de um país que não reflete sobre seu passado e não aprende com ele. “Isso começa na escola e o fato de a gente não se aprofundar no nossa história cria pessoas desvinculadas do passado”, considera.

“Setenta” é um dos documentários recentes que tenta estabelecer esse vínculo. Mas, para a cineasta, que foi ela mesma uma prisioneira política, o filme representa algo mais. O ex-marido de Silveira foi um dos 70 presos políticos libertados em troca do embaixador. “Eles sempre foram um grupo muito unido e eu queria conhecê-los melhor”, explica.

O desejo foi catalisado quando ela descobriu que havia registros em filme do grupo no Chile – para onde eles foram exilados. As imagens foram feitas por Haskall Wexler, diretor de fotografia de “Um Estranho no Ninho”, e lançadas no documentário “Brasil no Ápice da Tortura”, feito por ele em 1971.

Sobre a similaridade do episódio com o retratado em “O Que É Isso, Companheiro?”, Silveira afirma que se diferenciar nunca foi uma preocupação. “Se você der o mesmo tema para dez pessoas, elas farão dez filmes diferentes. Fazer o documentário foi uma forma de se aproximar dessas pessoas que se interessam por esse assunto, e não se afastar”, elabora.

No fim das contas, a cineasta acredita que “Setenta” é um longa sobre seres humanos comuns, com uma história um pouco diferente, que sobreviveram focando no objetivo de ‘tocar a vida’. “Eu achei que estava modificando a realidade fazendo o filme, mas na verdade ele que me modificou. Depois de 20 anos de análise, você acha que está toda resolvida, mas percebi toda uma autocrítica e saí dele outra pessoa”, confessa.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave