Amor em tempos de internet

Com texto de Felipe Rocha, segunda montagem da Cia. Afeta versa sobre uma relacionamento intenso e efêmero

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Mapping. Recurso projeta gráficos, fotos e vídeos durante a ação dos dois atores em cena e compõe diversas paisagens na montagem
SamuelMendes.com
Mapping. Recurso projeta gráficos, fotos e vídeos durante a ação dos dois atores em cena e compõe diversas paisagens na montagem

Em tempos em que a comunicação é ágil, através das redes sociais, a grafia das palavras se altera, se encurta, novos verbetes são formados, quase neologismos. Em tempos de #hashtag, links remetem a páginas e trending topics mostram os assuntos mais comentados da rede. É nesse contexto comunicativo, efêmero e intenso, que o espetáculo “#140 ou Vão” se inspira para tecer a história de um casal que se conhece, se apaixona, decide morar junto e se separa – tudo isso em três meses. A peça estreia hoje, no teatro Oi Futuro Klauss Vianna e faz curta temporada.

“O que duraria anos para nossos avós se resume a três meses”, brinca o diretor Nando Motta. “Mais do que falar sobre a tecnologia, nós queríamos mostrar como ela influencia as relações hoje, sem fazer juízo de valor. Sem nostalgia do passado, apenas um retrato de nosso tempo”, completa ele.

Ainda que esteja habituado com a comunicação das redes sociais, você deve estar perguntando: mas afinal, que diabos, esse título quer dizer?! “140 é o número máximo de caracteres que a pessoa pode dar para publicar algo no Twitter. Isso demonstra essa capacidade, essa necessidade de síntese na comunicação entre as pessoas”, relata Motta.

O “Vão” presente no título da obra também traz reflexões filosóficas e remete ao cenário da peça. “A ação toda se passa em um elevador, que é justamente onde esse casal se conhece. O vão vem do espaço do elevador, que em arquitetura, é considerado um espaço morto, pois não há deslocamento horizontal. Em uma planta baixa, é possível observar isso. É curioso pensar que as pessoas se deslocam ali naquele vão, quilômetros em muitos anos e não saem do lugar”, filosofa Motta. Ele também lembra que “Vão” é a conjugação do verbo ir, no presente da terceira pessoal do plural.

A encenação se vale de vários recursos para compor sua identidade. Além do trabalho de Barulhista, responsável pela trilha sonora – que o diretor garante ser bastante popular, mesmo em seu caráter experimental –, a Cia. Afeta foi buscar outras referências no próprio teatro (digital do canadense Robert Lepage) e outras que vão além: a estética de cineastas como Gustavo Taretto (“Medianeras”), Michael Haneke (“Amor”) e Marc Foster (“Mais Estranho que a Ficção”).

O recurso mapping é utilizado como forma de ampliar a encenação, pois ele projeta aleatoriamente fotos, vídeos e gráficos de forma inesperada, enquanto os atores estão em cena.

Cômico. Diferentemente de sua primeira montagem, “180 Dias de Inverno” – em que narrava a complicada relação do artista Nuno Ramos e sua esposa, Sandra – o novo trabalho da Cia. Afeta propõe um viés cômico para retratar, mais uma vez, a história de um casal. “Era essa chave contrária que eu estava buscando, o espetáculo é mais leve, mas é tão intenso e tenso quanto o primeiro, mas com um humor mais grosseiro, carioca, ácido para retratar a relação entre essas duas pessoas”, revela.

Um dos destaques de “#140 ou Vão” é o texto assinado pelo ator, diretor e dramaturgo carioca Felipe Rocha – que tem no currículo trabalhos com Enrique Dias e Cia. dos Atores e é codiretor do Grupo Foguetes Maravilha, onde atua como autor, diretor, ator e produtor, em espetáculos como “Ele Precisa Começar”, “2Histórias” e “Ninguém Falou Que Seria Fácil”. Esse último ganhou os prêmios Shell, APTR e Questão de Crítica por melhor dramaturgia, em 2011. “O texto da peça foi todo escrito em processo. O Felipe veio a Belo Horizonte três vezes e nós trabalhávamos diretamente na sala de ensaio. Ele escrevia de dia e trazia suas propostas à noite”, revela Motta.

Teatro para Ver. A apresentação de domingo será especial, porque contará com os recursos com audiodescrição, em closed caption e Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), para atender também às pessoas com deficiência auditiva, visual, intelectual, com síndrome de down, autistas e disléxicos, dentro do projeto Teatro Acessível – Para Ver Mesmo sem Enxergar, para Ouvir Mesmo sem Escutar.

Agenda O quê. Estreia “#140 ou Vão”

Quando. De hoje até 08 de junho. Sextas e sábados às 21h e domingos às 19h.

Onde. Teatro Oi Futuro Klauss Vianna (avenida Afonso Pena, 4.001, Mangabeiras).

Quanto. R$ 10 e R$ 5 (meia-entrada)

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