Bardo do Bar: Paladino

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Hélvio
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Não se sabe ao certo a idade de Venâncio, ele costuma dizer que está caminhando para o centenário e, pelos cálculos de Olavo, ele deve ter 94 ou 95 anos. O que ninguém discute é que é o frequentador mais velho do Paladino, e também o mais antigo, conforme atestam as histórias que gosta de contar sobre os encontros de músicos que aconteciam ali em meados do século passado. Venâncio recorda que era Baltazar Tavares, o avô de Olavo, que ainda não era nem um projeto de gente, quem estava à frente do Paladino naqueles tempos idos. “Tempos movimentados”, costuma suspirar com ar saudosista o ancião, que, a despeito da idade avançada, é de uma lucidez invejável e dono de uma memória prodigiosa, que retém não só os acontecimentos relacionados às rodas de samba e choro que costumava acompanhar, como pandeirista, nos anos de 1940 e 1950, como também passagens da vida e relatos íntimos de seus boêmios companheiros de então. “Manuel Belarmino, que tinha vindo de Portugal para o Brasil quando já tinha uns vinte e poucos anos, então já com um sotaque consolidado que nunca o abandonou, parecia, na verdade, ter nascido em algum reduto carioca do samba. Tocava um cavaquinho com uma ginga típica de quem é muito do ramo. Era um prazer especial tocar com ele”, recorda Venâncio, com a formalidade polida que é marca registrada de seu jeito de falar. “Ele morava aqui perto, na casa em que fixou residência logo quando chegou na cidade, ali por volta de 1942, vindo de uma temporada em São Paulo, onde desembarcara ao chegar de Lisboa. Manuel bateu ponto aqui no Paladino por uns bons 15 anos, até que se casou com uma moça muito bonita, como é mesmo que se chamava? Efigênia, acho que é Efigênia, que também morava aqui nas redondezas. Moça muito boa, mas que acabou afastando o Manuel da boêmia”, conta. A audiência, independente de qual seja, invariavelmente gosta das histórias que Venâncio conta e dá corda, perguntando mais a respeito ou simplesmente arregalando os olhos para expressar interesse. Ele não se faz de rogado. “Tinha também o Ranieri. Sujeito muito bom de ritmo, tocava surdo e também pandeiro, então a gente costumava revezar as funções na roda. O Ranieri sim, era da gema, costumava dizer que o pai dele era dos primeiros sambistas da cidade, quando ela ainda estava se formando, na primeira década do século passado. O Ranieri, se não me falha a memória, foi, inclusive, um dos fundadores do Grêmio Recreativo Escola de Samba Surpresa, no bairro Lagoinha, isso já no final dos anos 1930. O Ranieri, pelo que sei, acabou seguindo carreira na música. Depois de batucar muito aqui no Paladino e em outros redutos de samba e choro da cidade, ele se mudou para o Rio de Janeiro, onde conheceu e tocou junto com o Russo do Pandeiro, que, por sua vez, montou o grupo Gente do Morro, com o Benedito Lacerda. O Russo, aliás, chegou a fazer carreira internacional, viajando com a Carmem Miranda. O Ranieri também conheceu e chegou a fazer umas coisas junto com o Vicente Paiva, que integrou o Grupo da Velha Guarda e os Diabos do Céu, ambos liderados por Pixinguinha”, conta Venâncio, como quem vai desdobrando arquivos da memória. “A fama do Paladino como reduto da boêmia, do samba e do choro naquela época reverberava longe. Me lembro de quando recebemos a visita do Cristóvão Alencar, compositor e jornalista nascido em São Paulo, mas criado na Vila Isabel, no Rio de Janeiro. Ele tinha um programa na rádio Guanabara muito empenhado a divulgar não só os consagrados, mas também uma turma nova do samba que estava surgindo. ‘Amigo Velho!’, era como ele se dirigia aos ouvintes, e de tanto dizer isso acabou pegando esse apelido, Amigo Velho. Era um cara ativo, deixou mais de 160 composições com vários parceiros. Ele também foi um dos fundadores da União Brasileira dos Compositores, em 1942. Como era um sujeito muito interessado em tudo o que estava acontecendo, ficou sabendo da existência do Paladino, por via de algum amigo, quiçá o próprio Ranieri, e veio do Rio conhecer. Foi, por assim dizer, uma noite de gala, com a turma toda tocando até quase o raiar do dia. O único porém foi o vexame que o Belisário deu, mas dele eu tenho que falar mais detalhadamente, é outra história, eu conto depois”.

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