O mago da poesia visual

Dos quadros às retroprojeções multi-cromáticas, o artista Petit Georges coleciona experiências de vida pelo mundo

iG Minas Gerais | Lucas Buzatti |

Versatilidade. “Procuro ligar o aleatório ao racional. Criar uma interação harmônica entre elementos distintos”, afirma Petit Georges
Lincon Zarbietti / O Tempo
Versatilidade. “Procuro ligar o aleatório ao racional. Criar uma interação harmônica entre elementos distintos”, afirma Petit Georges

Enquanto prepara um cigarro de tabaco, Petit Georges começa a resumir sua trajetória artística e pessoal. O artista plástico argentino, radicado no Brasil desde os anos 1980, recebeu este repórter do Magazine em seu apartamento para uma entrevista, que acabou se transformando em um papo substancial de quase três horas. Não havia como ser diferente: mais que um grande artista, Petit Georges é um baú infindável de histórias. 

Nascido em Buenos Aires, Jorge Osvaldo Orandi foi apelidado “Petit” quando viveu na França, devido à sua baixa estatura e aparência franzina. De fala pausada e reflexiva, ele intercala explicações sobre seu trabalho com casos de uma vida marcada pela imersão na cultura alternativa. Universo do qual, aos 67 anos, continua participando intensamente, haja visto sua mais recente empreitada artística: as projeções multi-cromáticas realizadas em retroprojetor nos shows das bandas mineiras Electrophone e Iconili.

Sob uma bandeja de vidro, Petit mistura mais de 30 produtos químicos, como anilinas, corantes e óleos, que reagem projetando uma explosão de cores psicodélicas e imprevisíveis. “É bastante aleatório, você não sabe como será a reação química. Às vezes surgem rostos surrealistas, que vão se transformando. Com a química você cria uma relação mais direta com a arte, sem intervenção ou manipulação digital”, explica.

O trabalho com as projeções já foi apresentado no Festival de Inverno de Diamantina, em shows em Belo Horizonte e São Paulo, e, mais recentemente, na edição do TEDx na capital mineira. Em Diamantina (onde Petit viveu por quase duas décadas), na França e em BH, a artista realizou exposições individuais de quadros em acrílico sobre tela, nos quais tramas retilíneas com referências étnicas misturam-se a curvas e pinceladas. “Procuro ligar o aleatório ao racional. Criar uma interação harmônica entre elementos distintos, com exatidão na composição”, afirma.

As esculturas verticais, feitas em acrílico sobre estruturas geométricas simétricas em eucatex, que se assemelham a mini-canoas de madeira, também nortearam a produção de Petit Georges por muito tempo. Seu resultado pôde ser visto na exposição “Verticalidades”, apresentada em Diamantina e em São Sebastião das Águas Claras. O artista também produz retratos realistas feitos com lápis dermatográfico sobre papel rugoso, com resultado estético semelhante ao do pontilhismo.  

A versatilidade artística de Petit Georges é reflexo de uma vivência pessoal repleta de episódios ímpares. Entre um cigarro e outro, ele destila histórias incríveis que vão desde a perseguição da ditadura militar argentina – por conta de uma namorada guerrilheira, o que o levou à prisão por quatro vezes –, até a participação no movimento psicodélico na França e na Bélgica, nos anos 60, grifada pela experiência com alteradores de consciência. “Sobrevivi à tirania do meu país para viver a criação de novos conceitos da existência humana, como a liberação do amar e do experimentar”, relembra.

Petit já morou uma semana num castelo no Sul da França; conheceu o quadrinista norte-americano Robert Crumb; lutou contra o Transtorno Obsessivo Compulsivo na infância; estudou artes, psicologia profunda, filosofia oriental, fotografia e publicidade; casou e se separou por duas vezes; criou o filho André, instrumentista da banda Iconili; e foi até “padre” na telessérie “A Cura”, da TV Globo. Sem contar que, ainda adolescente, viajou pelo mundo. “Aos 13 anos já conhecia 29 países. Fiz uma viagem de oito meses com meus pais e irmãos. Passamos por todos os continentes e, em alguns países, visitamos mais de cinco cidades. Foi o ano em que tive dois réveillons, um no Japão e outro no Havaí”, conta.

A riqueza dos relatos são assunto para livro. Tanto que jornalistas amigos de Petit preparam uma biografia, ainda sem previsão, baseada em conversas gravadas com o artista e em textos escritos por ele. Todos a mão, já que Petit – apesar de utilizar elementos eletrônicos em suas produções artísticas – é avesso aos computadores. Fato que pouco importa para um artista que não precisa de memória RAM para guardar experiências de vida e produzir arte com inovação e vitalidade.

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