Além do espelho

iG Minas Gerais |

Ela acordou mais cedo do que o normal. Desanimada, cara amassada, olhou-se no espelho e foi direto para o banho. Como todos os dias, se aprontou para ir ao trabalho. Depois do ritual – creme no corpo, escolha da roupa e um batom de cor básica –, mais uma vez, ela voltou a observar o próprio reflexo. O dia era diferente. Completava mais um ano de vida. De alguma forma, ela também se sentia diferente. Parou ali. E assim ficou, inerte, diante de si mesma. O olhar fixo no espelho fazia questão de ressaltar cada um dos detalhes vindos com o tempo. Os leves vincos na testa começavam a se acentuar. Riscos de expressão também já contornam o sorriso. A mulher levou as mãos aos cabelos. Jogou para um lado. Depois, para o outro. Em pensamento, lamentou os fios brancos que a tintura já não consegue esconder tão facilmente. Em seguida, deu três passos para trás. Queria se ver de corpo inteiro. Nem toda roupa lhe cai bem. A calça daquele dia apertava um pouco a leve barriga que, por muitos anos, foi chapada. Os famosos pneuzinhos entraram na silhueta, antes tão esbelta. Já sabe que as roupas excessivamente justas não lhe favorecem mais. Além disso, ressaltam o culote. Voltou ao armário. Trocou o sapato baixo por um alto para ver se ajudava a alongar o corpo. Virou de costas, para mais uma conferida. Naquele dia, resolveu trocar o batom. Afinal, era a data na qual completava um novo ano. Correu mais uma vez ao armário. Abriu a bolsinha onde ficava a maquiagem. Escolheu o vermelho vivo. Queria alegrar o rosto abatido, que parecia refletir todo o seu o cansaço. E, de fato, ela estava cansada. Ritmo louco, vida frenética. Dedicação intensa ao trabalho, amor excessivo à família. Lembrou-se, então, de que andava pensando pouco em si mesma. Concluiu estar reclamando demais: das coisas, das pessoas e do passar do tempo. Recordou o quanto foi uma jovem alegre e comunicativa. Pensou em quanto da sua juventude levou para a vida adulta. Viu-se ainda faceira, rodeada de amigos. Muitos e queridos. Sempre em bando e com o vigor que só a pouca idade pode ser capaz de trazer. Questionou qual era a medida certa entre o seu antes e depois. Então, de volta ao espelho, coloriu os lábios. Prendeu e soltou o cabelo que anda bem comprido e sem corte. Os fios brancos – a certa distância – até que passam despercebidos. As marcas de expressão continuam ali, firmes, ganhando cada vez mais espaço e se preparando para contar cada pedacinho da história dela. Bem de perto, elas nem são tão cruéis. Ainda de frente pra si mesma, deu um leve suspiro. Ali, de pé, fixou o olhar e viu, além do espelho, as coisas que ele não podia mostrar: os tantos benefícios trazidos pelo tempo. Lembrou o quanto está de prontidão para lidar com os problemas e o quanto os desafios podem parecer pequenos. Viu a clareza de suas ações e o jogo de cintura para enfrentar as dificuldades. Cresceu no afeto, ama com mais brandura e foi presenteada com a maturidade no enfrentamento de vários tipos de crises. De frente ao mesmo espelho, sentiu-se mais bonita. Afinal, se via por inteira. Naquele dia, acordou com um novo ânimo. Renasceu e estava agradecida por isso. Era seu aniversário. O maior presente naquele momento era viver. Sentia-se feliz consigo mesma, com seus acertos e erros. Ainda assim, ela desejava ser uma pessoa melhor, fazer mais o bem, ignorar os inconvenientes de dias difíceis, passar por cima da maldade alheia ou da total falta de noção. Sabia que a meta era difícil. Ainda assim, queria tentar: ser lembrada pelo seu melhor. Apenas isso. Olhou-se mais uma vez. Pegou a bolsa e, enfim, foi trabalhar. 

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