O ser humano é a porção inteligente e consciente da Terra

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DUKE
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O ser humano consciente não deve ser considerado à parte do processo da evolução. Ele representa um momento especialíssimo da complexidade das energias, das informações e da matéria da Mãe Terra. Em outras palavras, nós não estamos fora nem acima da Terra viva. Somos parte dela, junto com os demais seres que ela também gerou. Não podemos viver sem a Terra, embora ela possa continuar sua trajetória sem nós. Por causa da consciência e da inteligência, somos seres com uma característica especial: a nós foram confiadas a guarda e o cuidado da Casa Comum. Melhor ainda: a nós cabe viver e continuamente refazer o contrato natural entre Terra e humanidade, pois é de sua observância que se garantirá a sustentabilidade do todo. Essa mutualidade Terra-humanidade é mais bem-assegurada se articularmos a razão intelectual com a razão sensível. Damo-nos conta, mais e mais, de que somos seres impregnados de afeto e de capacidade de sentir, de afetar e de ser afetados. Essa dimensão, também chamada de “inteligência emocional”, foi recalcada na modernidade em nome de uma pretensa objetividade da análise racional. Hoje sabemos que todos os conceitos, ideias e visões do mundo vêm impregnados de afeto e de sensibilidade (M. Maffesoli, “Elogio da Razão Sensível”, Vozes, Petrópolis, 1998). A inclusão consciente e indispensável da inteligência emocional com a razão intelectual nos move mais facilmente ao cuidado e ao respeito da Mãe Terra e de seus seres. Junto às inteligências intelectual e emocional, existe no ser humano também a inteligência espiritual. O espírito e a consciência têm o seu lugar dentro do processo cosmogênico. Podemos dizer que eles estão, primeiro, no universo e, depois, na Terra e no ser humano. A distinção entre o espírito da Terra e do universo e o nosso espírito não é de princípio, mas de grau. Esse espírito está em ação desde o primeiríssimo momento após o Big Bang. Ele é aquela capacidade que o universo mostra de fazer de todas as relações e interdependências uma unidade sinfônica. Sua obra é realizar aquilo que alguns físicos quânticos chamam de “holismo relacional”: articular todos os fatores, fazer convergir todas as energias, coordenar todas as informações e todos os impulsos para cima e para a frente, de forma que se forme um Todo e o cosmo apareça de fato como cosmo, e não simplesmente a justaposição de entidades ou o caos. É nesse sentido que não poucos cientistas falam do universo autoconsciente e de um propósito que é perseguido pelo conjunto das energias em ação. Não há como negar esse percurso: das energias primordiais passamos à matéria, da matéria à complexidade, da complexidade à vida, e da vida à consciência, que nos seres humanos se realiza como autoconsciência individual, e da autoconsciência passamos à noosfera, pela qual nos sentimos uma mente coletiva. Todos os seres participam de alguma forma do espírito. Eles também estão envolvidos numa incontável rede de relações que são a manifestação do espírito. Essa compreensão desperta em nós um sentimento de pertencimento a esse todo, de parentesco com os demais seres da criação, de apreço por seu valor intrínseco, pelo simples fato de existirem e revelarem algo do mistério do universo. Ao falarmos de sustentabilidade em seu sentido mais global, precisamos incorporar esse momento de espiritualidade cósmica, terrenal e humana, para ser completa, integral, e potenciar sua força de sustentação.

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