A nação exige uma lufada de novos rumos

iG Minas Gerais |

Estive a reler no último fim de semana, cumprindo um velho hábito, o inigualável Bruxo do Cosme Velho. Machado de Assis foi agraciado com esse epíteto por outro vulto gigantesco, corpo delgado e fino que lhe contrariava as dimensões da genialidade, na crônica “A um bruxo, com amor”, de Carlos Drummond de Andrade, publicada em “O Globo”. Pode ser que Drummond tenha se inspirado no apelido que os vizinhos da casa de número 18 onde morava o mago das letras lhe teriam atribuído por causa de um caldeirão de bronze que lhe servia para queimar cartas, jornais, papéis velhos e pequenas bugigangas. Certo é que, muito bem-bolado, ficou, varou os tempos e permanecerá para sempre. Ao passar pelas “Memórias Póstumas”, abri-lhe as páginas e dei com o capítulo “Razão contra Sandice”, por sinal muito do meu agrado, que se segue à famosa narrativa de “O Delírio”, um primor para todas as épocas, e o velho Machadinho, que assume a partir dessa obra-prima as alturas de gênio da língua, confessa compreender que, no digladiar da razão contra a sandice, clama aquela, “e com o melhor jus, as palavras de Tartufo: ‘La maison est à moi, c’est à vous d’en sortir’”. Aí, a nação diz ao governo: a casa é minha; se não quero hospedar-te, cai fora dela. A briga entre a razão e a sandice é velha como o princípio dos tempos. Atestam-no Adão e Eva. Segundo poética narrativa do livro de Gênese, “no princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas”. Então, o Senhor percebeu que a obra estava inacabada. Disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Logo após, criou o homem e a mulher à sua imagem. Ordenou-lhes que se multiplicassem, enchessem a terra e a submetessem. Depois, “o homem uniu-se à sua mulher, e se transformaram numa só carne”. E viveram no paraíso, onde tinham de tudo, exceto o fruto da árvore da ciência e o mal. Foi quando surgiu a ambição, cega, ensandecida e fatal. E o homem, que tudo possuía, decaiu, porque não se satisfez com o que pensou ser a chave da vida. E tornou-se mortal. Assim aconteceu com o lulopetismo. Fundado, partiu para a conquista total do poder, ignorando que este, por natureza implícita, não deve ser totalizador nem durar para sempre. E contraiu a doença da sandice. Após muito insistir e fracassar na conquista do poder, não aceitou-lhe a marca existencial da transitoriedade. Democrata, ignorou os contrafortes que haveriam de ser os delimitadores da sua ação. E achou de arredá-los, não admitindo limitações. Nem as da República nem as da parceira natural, a democracia. A rota da razão lhe tornava impossíveis os sonhos do mando limitado pela lei. Então, o Nosso Guia não dispensou de fato a Presidência, e assenhoreou-se, esgotados os mandatos recebidos, dos destinos do país. Esqueceu-se, porém, de que a nação se cansa, fica sem rumos e de repente os reclama, simplesmente porque ao povo foi reservada a escolha do hóspede temporário do mais solene palácio do poder.

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